quarta-feira, 15 de maio de 2013


Reputação.


Fiquei um tempo pensando em como avaliar artistas, músicos, bandas neste ambiente diferente daquele da industria fonografica. 
Por inercia, ainda se presta atenção em “discos vendidos”, isso já era. Toda a produção musical passava por um ponto, a gravadora, que criava parametros para avaliação e julgamento fundamentais na difusão das obras. O numero de discos vendidos era um parametro concreto, sujeito a alguma manipulação mas tinha credibilidade. Os numeros de vendas refletiam um vago interesse do público. Artistas que vendiam bem nos USA ou na Europa eram lançados aqui. De alguma forma difusa, as vendas implicavam em influencia nos padrões estéticos vigentes, alem de influenciarem os caminhos da divulgação. A produção artistica circulava como um objeto de plastico absolutamente controlado, na fábrica, no estoque, nas faturas e também nas Notas Fiscais frias, quando o caminhão entregava o dobro do numero de discos estipulado nos documentos fiscais.
Mudamos para outro sistema, com muitas interfaces. Os ultimos CDs circulam, e criam numeros de vendas que agora são relativos. O grosso da circulação da música é informal, compartilhada, emprestada, copiada. Uma pequena parte da circulação digital passa por lojas, tem algum controle. A plataforma da música hoje é muitas vezes maior que a industria fonografica, que mantem seu movimento.

Praticamente todos os artistas novos ou fora do mercado comercial não ostentam mais um “numero de vendas” que reflita sua aceitação pelo público. Aparecem alguns indices como o numero de vistas no YouTube, ajudam a ter uma idéia da repercussão do artista, mas precisam ser colocados em perspectiva. Um instante de glória às vezes cria monstros com milhões de vistas, mas foi só um gatinho no video.
Outros parametros vão sendo incorporados a esta avaliação da relação entre artista e público, como o numero de seguidores no tuiter, o numero de likes no face, a velocidade de espalhamento dos seus comentarios e por ai vai.
Cada vez mais esta avaliação se distancia da relação entre o artista e sua performance industrial e se aproxima de uma relação entre sua persona virtual com seus fãs, pelas recomendações, pelo boca a boca, por hypes construidos e por explosões imprevisiveis em esferas da vida social, longe da midia, da industria ou de qualquer território controlado. 
A industria continua a manipular uma e outra manobra, como o vazamento antecipado, carta velha no baralho desde Roberto Carlos, que ainda funciona com um ou outro medalhão como Bowie ou Daft Punk, cria movimentos pontuais mas não funciona com artistas medianos ou novos.
Os bilhetes vendidos nos shows ao vivo também fazem parte desta cesta de indices, mas não temos aqui a organização de mercado com bilheterias publicadas. Os donos de casa noturnas e teatros não divulgam numeros. Mas a informação de shows lotados se agrega à definição de sucesso e nem sempre casas vazias querem dizer fracasso artistico.
Enfim, acredito que numeros de vendas, tanto de CDs quanto de downloads refletem um estimulo marketeiro para vender um pouco mais do que já está vendendo no comercio de música gravada, e isso não tem nada a ver com o que acontece no mundo da música que ouvimos.

Reputação, então, começou a se desenhar como uma forma de descrever este indice composto de muitos vetores que definem uma carreira musical que pode estar em diferentes estagios, passando do anonimato para o reconhecimento e para a influencia e aceitação. Mas reputação é uma palavra que muda de significado em cada frase, tem muitos usos e eu não conseguia segurar com firmeza para poder aplicar na música, nos negócios da música, na vida artistica.

Estava com esta palavra entalada, nem ia para o éter nem descia para o papel. Resolvi procurar o que ela queria dizer por ai  e no google até a ultima página, um  velho habito de não confiar num unico dicionario. Apareceram muitas definições, todas uteis e diversas e nem por isso definitivas.

A referencia que me chamou a atenção primeiro foi a que parece que criou raizes mais fundas na internet, virou um meme sobre reputação. Da ficção cientifica de Cory Doctorow, Down and Out in the Magic Kingdom - tem uma tradução disponivel gratis aqui  -  surge uma noção que encantou os nerds: the whuffie is a reputation currency, onde o whuffie é  um trocadilho com ‘whuf’, um latido grave -  o latido é uma moeda de reputação, baseada na opinião dos outros expressada nas redes sociais.  Se voce é querido, respeitado e faz suas entregas em dia, os latidos se acumulam em sua conta. Com uma conta cheia de latidos voce paga seu aluguel e transporte, roupa, ferramentas e comida. Se voce urina do lado de fora do ourinol perde seus latidos instantaneamente. Ande na linha e voce consegue o que precisa. Consiga emplacar seu carisma e será o rei da reputação. Como sabemos das midias sociais de hoje, todos votam o tempo todo e por isso os latidos tem volatilidade absurda. Não é muito bom nem como moeda nem como tesouro,de tão volatil. Quem segue o que acontece hoje em dia com os bitcoins, a primeira moeda virtual a entrar no mercado, percebe que este pode ser o comportamento da economia do virtual, a volatilidade permanente.
Dentro da história os latidos vão e vem, ilustrando o poder das redes sociais, o efeito da manada e a criação sistematica de memes para sobreviver no ambiente memético como diz Alex Antunes.
Anotei e segui em frente. Na novela a administração da moeda de reputação depende de tecnologia ainda não implementada, terminais embutidos na visão, imersão profunda na rede. Me encantou alguem desenhar tão bem o que seria a reputação como moeda, e algumas consequencias disto.

Brodagem não paga contas”, Dago Donato. Tem cara de ter sido um tuite, expressando um mote de sabedoria da vidaloka. Brodagem é um termo que pode ter sido criado pelo Miranda, tanto que ele usa desde sempre. Coisa entre irmãos, uma brodagem. Geralmente significava que uma transação que tinha valor de mercado era operada sem moeda sonante. Entre irmãos. Eu toco no seu disco e voce mixa o meu.  Ou ainda, na versão mais fluida, voce fala bem de mim que eu digo que voce é legal. Reputação no paralelo, criando valor sem passar pelo caixa. Ao mesmo tempo que explicita que pode ser uma operação sem valor real monetario, também fica explicito para os broders que foi só uma brodagem, ou seja, não constroi reputação nem paga contas.

Reputation Institute - Confiança, Estima, Admiração e Respeito
Um Instituto só para dizer para as empresas que elas precisam ter reputação e que esta reputação é administravel. Sua reputação é construida pelas idéias que voce defende, mais do que pela sua mercadoria que vende. Defenda boas idéias - economize agua, proteja as tartarugas, esqueite é saudavel - e voce vai ver a reputação de sua companhia crescer acrescentar valor e defesas à sua marca. Mas são uns caras de pau! Como se não estivessemos no quarto enquanto eles combinam que vão parecer bonzinhos. Sim, dizem eles, reputação é formada por confiança, estima, admiração e respeito. Só não dizem que existem falsas reputações que são criadas com promessas vazias.

Na Wikipedia - A reputação também é conhecida como um mecanismo de controle social ubíquo, espontâneo e altamente eficiente em sociedades naturais. É objeto de estudo em ciências sociais,administração e tecnologia. Sua influência vai de ambientes competitivos, tais como mercados, aos corporativos, tais como empresas, organizações, instituições e comunidades. Ademais a reputação atua em diferentes níveis de agência, individual e supra-individual. Ao nível supra-individual, diz respeito a grupos, comunidades, coletivos e entidades sociais abstratas (tais como empresas, corporações, países, culturas e mesmo civilizações). Ela afeta fenômenos em diferentes escalas, da vida cotidiana às relações entre nações. A reputação é um instrumento fundamental da ordem social, baseada em controle social espontâneo e distribuído.
Gostei desta linha. Primeiro, reputação como mecanismo de controle social, expontaneo e distribuido. Segundo que afeta a todos, de individuos a nações. Consigo desta forma imaginar a reputação como algo que permeia toda a música, as obras, os músicos, as interpretações, os generos, as diferentes habilidades para fazer música, todo o campo e sistema da música é sujeito à ação da reputação, das diferentes dimensões da reputação. Podem chamar de hype ou carisma, tanto faz, são expressões da reputação.

Pondé, FSP, 3-9-12, …” Valores são sempre materiais, ligados ao poder, patrimonio, sucesso, reconhecimento. … a moral pública sempre foi fundada na hipocrisia e na superficialidade de julgamento do comportamento alheio.” 
Não acredito que o conceito de reputação como referencia nas trocas de valor simbolico seja compreendido neste sistema de pensamento.

Do livro Economia criativa : um conjunto de visões - André Stangl - McLuhan e o Link da Alegria Criativa - No mundo simultâneo das redes digitais, a atenção organiza o tempo. Se antes acreditávamos que “tempo é dinheiro”, hoje podemos dizer que atenção é dinheiro. Sem atenção não existimos na rede. Entrar em uma rede é buscar atenção e dar atenção, essa é a nossa nova moeda. McLuhan dizia que quando uma coisa é atual, ela cria uma moeda.
Buscar atenção e dar atenção define muito bem o objetivo de um artista que queira ter vida na rede.   A atenção dos muitos fãs se acumula na direção do artista, cria um valor. Há uma troca necessaria e construtiva, acontecendo agora e esta moeda criada, fruto da visibilidade na rede pode ser representada pela reputação aumentando.

Do mesmo livro Economia criativa : um conjunto de visões  - Marcelo Rosenbaum e Rosely Galhardo - O design e a EC. - Para entender melhor a Economia Criativa, o consultor Ken Robinson, especialista em criatividade, explica que há três palavras-chave:  
• A primeira é a imaginação, principal fonte de criatividade.
• A segunda é a  criatividade que consiste em colocar a imaginação para trabalhar. Criatividade é também o processo de geração de ideias originais que tenham valor – pode ser na música, nas artes ou na gestão da empresa.
• A terceira palavra-chave é a inovação, que significa colocar as ideias iluminadas em prática.
Este processo de extrair valor da pura imaginação colocada em prática  descreve o que é a essencia do trabalho do artista, o parametro pelo qual será julgado, mesmo que não seja tão claro. O artista se afasta da categoria de bom operario da música, afinado, pontual, responsavel e se transforma num criador quando traz este ingrediente para seu trabalho diario. E do nada surgem canções, estilos, hits. Este é o cara que acumula pontos em sua reputação, o criativo.

Idem, Luciana Annunziata - Toda EC pode ser criativa -  o sonho de muitos
jovens é encontrar trabalho nesse setor porque há uma grande possibilidade de expressão criativa e reconhecimento. Esse modelo de trabalho influencia milhares de jovens que buscam construir sua reputação nas redes sociais, produzindo e compartilhando os resultados de seu trabalho e dos métodos utilizados. Free riders , aqueles que somente se beneficiam da produção das redes sem contribuir,
nunca atingem tal reputação.
Não basta ser criativo, é necessario compartilhar, transferir sua produção para o comum, o coletivo. Isto é o que traz pontos para sua reputação, fazer pública sua criação, transforma-la em inovação, quando suas idéias iluminadas mudam o mundo real. Antigamente tinhamos intermediarios agindo neste ponto do processo, basicamente carreando sua criatividade até o mercado de discos. Hoje é necessario construir uma reputação compartilhando o resultado do seu trabalho. Se houver reputação há uma primeira promessa de recursos materiais chegando ali na frente, quando sua reputação for suficiente para transporta-lo até o reconhecimento público. Por enquanto não há dinheiro envolvido necessariamente e isto é normal.

Idem, Lala Diezehlin -Quatro Infinitos, Óculos 4D e uma Mãozinha para Ter Futuros Sustentáveis - … ainda não reconhecemos que “valor” é muito
mais do que o financeiro. Reputação (uma das poucas coisas que não é possível copiar), por exemplo, é um valor que tende a ser dos mais importantes...

...Normalmente, achamos que patrimônio se refere apenas ao financeiro, como investimento, financiamento, mercados, permutas, banco de horas, moedas complementares. Mas também existe o patrimônio na dimensão sociopolítica: o tecido social, as redes, a representação política, articulação, lideranças, ação coordenada, reputação. …
Perceba que a sua reputação, sua moeda não financeira começa a ser respeitada como patrimonio, mesmo que seja na area sóciopolitica. Uma reputação bem construida tem tanto valor quanto uma votação expressiva, tem valor representativo. De alguma forma, a aceitação e escolha do seu público pela sua arte tem valor reconhecido em outras esferas. Isto atrai mais atenção para o seu trabalho e portanto significa mais reputação, mais oportunidades de poder buscar recursos financeiros. Talvez não seja a hora de vender discos ou downloads, mas encontrar parceiros atraidos por sua reputação e cujo trabalho seja conseguir meios para criar resultados. Pode ser um produtor, uma pequena gravadora, um amigo empresario ou um publicitario que encomende um trabalho. Começa ai a ação coordenada, que pontencializa os resultados.

Idem, Gil Giardelli - A ruptura coletiva e a EC - Quando a escola vai ensinar de maneira convicta que o maior risco dos tempos atuais é justamente não correr riscos; que a moeda do século XXI é a reputação, e que falhar faz parte do jogo?
Espero que voce esteja investindo em sua reputação desde já. A concorrencia faz parte da vida e as minhocas são do passarinho que acorda mais cedo. Que horrivel!

Reputação é a mesma coisa que fama?
Brennan Heart & Wildstylez fizeram um video com “Reputation Game”:

Power, money, fortune, lose it
Fuck the fame, feel the music
Power, money, fortune, fame
Fuck the reputation game
Em ingles o jogo da reputação rima com fama. A opção recomendada é sentir a música e transcender poder, dinheiro e fortuna. Dane-se a fama, dane-se a reputação. Não deixa de fazer sentido, manter-se fiel ao coração, ao lado criativo e não se deixar levar pela busca obssessiva pela reputação e o seu excesso: a fama. Não fazer disto um jogo é um bom conselho, ainda mais dito tão enfaticamente: sinta a música, é de onde vem tudo.

Em algum lugar da velha internet dos sites, eu havia feito uma procura de significados da palavra talento, outro mistério cheio de interpretações e que atormenta  quem lida com música. Ficou na memória uma definição a partir da  origem da palavra. Talento é o que se conta, o que contamos dos outros, o que nos chama a atenção. O meu talento é uma feijoada muito comentada no Youtube. O que voce faz que é assunto, que é notado pelos outros. A palavra vem dos gregos e significava uma medida, uma conta, um peso. Virou uma moeda, que representava uma fortuna, algo como 30 Kg de ouro, uns dois milhões de reais. Por isso passou a representar algo valioso, porem imaterial, uma habilidade nata ou adquirida que permite que voce chame atenção, seja notado. Claro que faz parte do conceito de reputação. Na música, não basta ser criativo, inovador e buscar uma reputação. É necessario ter talento. Só o talento garante o orgasmo perfeito, com fama, fortuna e uma carreira pela frente, porque voce tem algo que não se desmanchará na volatilidade das redes sociais, sua reputação resistirá.
Mais recentemente, Malcolm Gladwell, autor de livros pop resolveu pesquisar sobre essa coisa de talento e fez uma revelação: existem dois tipos básicos de talento. O talento de quem nasce com o dom e sai tocando como um virtuose sem fazer força. O outro tipo de talento é adquirido após dez mil horas de pratica, ou seja uns bons anos dedicados às escalas infinitas. Neste momento não conseguimos mais discernir qual é um e qual é outro, ambos tem o mesmo talento. Ou seja, obter o orgasmo perfeito, com fama, fortuna, criatividade e inovação sem perder a reputação está ao alcance dos que no minimo se dedicam ao seu talento com disciplina e entusiasmo durante alguns bons anos.

Lose money for the firm, and I will be understanding. Lose a shred of reputation for the firm, and I will be ruthless." Warren Buffet, em algum tuite perdido.
Warren Buffet é o bilionario com talento para cuidar do dinheiro dos outros bilionarios. Diz ele: Perca dinheiro da firma e eu entendo. Perca uma lasca da reputação da firma e serei implacavel.
Mesmo falando de outro universo, continua a fazer sentido quando se pensa em reputação como sendo um grande valor para os artistas tambem. Errar é permitido, perder a reputação nem uma lasca. A reputação é o maior valor que os outros nos confiam para guardar. Tem a ver com confiança, admiração, respeito e estima e estas são coisas que como disse Milton, se guardam no peito.

Randall Farmer - Building web Rep - http://www.youtube.com/watch?v=Yn7e0J9m6rE
Reputação é a respeito de quem é bom e quem é mau.
Reputação é informação usada para fazer um julgamento de valor a a respeito de pessoas ou coisas. É um tecido feito por “eu confio, quem eu confio, porque eu confio neles”.
Reputação é sempre dentro de um contexto, quanto mais estreito mais bem definido.
Usamos reputação em todas as conversas, emitimos julgamentos o tempo todo, repassados ou criados.
Randall Farmer é um especialista em Reputação no mundo digital. É o criador de varios sistemas de medida de reputação, também chamados de karma, que medem o envolvimento e dedicação dos usuarios.
Sua visão bem pragmatica contem  definições precisas. Usamos reputação para avaliar quem é bom e quem é mau. Artistas lembrem-se disto. Reputação define estas palavras da entrega mágica: eu confio, em quem eu confio, porque eu confio neles. A entrega final de nossa confiança depende da reputação, simples isso.

Regra 6 do Regulamento do Golfe em Portugal: Um jogador amador não pode usar de seu talento ou reputação para auferir beneficios.
Parece óbvio, mas é um procedimento ético definir amadores como os que não auferem beneficios, mesmo que desempenhem as mesmas atividades que os profissionais. Isto seria um conceito util para o mundo da música, onde não há esta linha clara separando uns dos outros. Desta forma, os profissionais não podem se queixar de concorrencia desleal por parte dos amadores. Mesmo que os amadores estejam construindo sua reputação com seu talento e um dia se transformem nos novos profissionais.


xxx
ps maio 2013

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013


#Cardisrupt - atualizando

 As tecnologias que irão derreter o congestionamento de São Paulo


Vou colecionar noticias sobre o surgimento do carro sem motorista e outras tecnologias que podem causar o derretimento do congestionamento paulistano. Isto é uma picuinha minha, pessoal, paroquiana. Eu não sei dirigir, vivo sempre muito bem e nunca perdi uma peripécia por não ter um carro nem saber dirigir. Até acho que isso me leva mais longe mais fácil.

No post anterior fiz uma fábula desejando que fosse uma mudança rápida para os carros sem motorista. Talvez não seja tão rápida. Mas a ruptura está sendo preparada em muitas frentes diferentes. Digo mais, preste atenção, será um momento histórico e voce faz parte da mudança, vá procurar pelos sinais.

Hoje, 25 de fevereiro, sai uma nota sobre os primeiros autos (sem motorista) circulando na Inglaterra, por conta de pesquisas. Já descobriram que o GPS não é confiavel, por causa dos canyons urbanos, a sombra dos prédios. Estão optando por um mapa na memória e um scanner a laser, que identifica com precisão o local no mapa e tambem os obstáculos.

Em um blog de aficcionados por corridas de carros de fábrica leio uma lamentação que os carros de F1 já são praticamente amparados por tecnologia sem motorista. A posição do carro de F1  na pista é conhecida e precisa em centimetros, usando um GPS de ponta. Um computador traça a trajetória ótima para as curvas, que não é tão intuitiva quanto parece. Dicas são passadas para o piloto que incluem correções do angulo de entrada, os pontos de freada e mudança de marcha, para que o piloto atinja o limite. Na verdade, todas as outras computações, combustivel, vento, distancia dos adversarios, tudo já está sendo calculado em tempo real e o piloto não para de ouvir uma torrente de dicas, que ele deve seguir. O blog se lamentava do futura falta de emoção e perigo que tomará conta das corridas de automóvel, e já com expectativas de assistir as primeiras corridas de carros sem motoristas, cujo vencedor terá champagne derramada no teclado do seu laptop. Aleluia irmãos.

Em outro site, tabelas e históricos sobre "direção em comboio", dizendo que se pesquisa isto desde os anos 70, durante a primeira crise do petróleo e existem muitos dados acumulados. Dirigir em comboio, aproveitando o "vacuo" do carro da frente, é conhecimento de todos e pratica comum nas corridas. A diminuição da resistencia do ar gasta menos combustivel. O que não se sabia é que quantos mais carros estiverem no comboio, mais aumenta a economia de combustivel, desde que se mantenham a uma distancia de dois metros. A partir de seis carros, o total da economia de combustivel chega até incriveis 30%. Claro que isto não se consegue reproduzir no transito, o risco de colisão é alto. Mas o assunto aparece porque dirigir em comboio será a pratica dos carros sem motoristas, com distancias e velocidades mantidas com precisão, porque os carros se comunicarão, estarão em rede quando próximos. Esta tecnologia de conexão dos carros entre si parece viavel

Em outro tom, em Boston, a policia fechou uma empresa que pilotava um aplicativo de celular que organizava caronas. O sindicato dos taxis alegou serviço ilegal e conseguiu uma sentença de um juiz. Ei taxis de São Paulo, voces estão na reta! Caronas eliminam carros das ruas.

Busquei tuites com a palavra "driverless" e apareceu um artigo bem arrumado sobre as "Cinco Razões Porque O Carro Sem Motorista É Inevitavel". Basicamente são estas mesmas razões nas quais eu  acredito.

Para os que querem uma analise de profundidade no assunto, a Forbes está publicando uma série de artigos que analisam com rigor todos os angulos, "Amarrem Seus Cintos". Qual a estratégia real da Google - distribuir gratis o android dos carros? Como a industria automotiva reage a isto, uma vez que eles são pés-de-chumbo e adoram dirigir? Resistirão racionalizando ou se transformam?

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Eu tive um sonho...não haviam mais congestionamentos.

O carro sem motorista pode chegar ás nossas ruas antes do carro elétrico?

Disruptura

Ainda não achei uma tradução que prestasse para a palavra "disruption". Pode ser interrupção, quebra, ruptura. Disruptura existe?  Disruption tem sido empregado para descrever o que acontece com empresas ou setores da economia que encontram um concorrente digital que literalmente dissolve o negócio. A disruptura que as máquinas fotográficas causaram no negócio da fotografia, por exemplo: sai de cena um negócio de 100 anos e começamos tudo de novo. Cada vez mais este é um processo em aceleração permanente. A industria fonográfica, uma das primeiras, se não foi a primeira, a sentir o calafrio da dissolução causada pela entrada no reino digital. Tudo que se digitaliza entra para a fila de espera da inovação digital que desmancha o negócio analógico. Os jornais, os livros, os relógios, o correio, o cinema, tudo se transforma quando digitalizado. Os antigos impérios industriais se renovam em cima da internet, agora diluídos na mão de programadores ou de empresas de captura e organização de bits. Estamos todos nos transformando em processadores de informação. Quase tudo que fazemos com nosso tempo é lidar com informação digitalizada. Com as impressoras 3D, as coisas estarão sendo digitalizadas e lá vamos nós, rumo a muitas outras disrupturas: aparelhos de barba, talheres e pratos, óculos, brinquedos. Coisas adeus, vocês estão na fila. 

Mas pode ser mais louco ainda. O automóvel vai entrar na roda.


Nas ultimas semanas, notei que alguns lugares do mundo estão anunciando que autorizaram a circulação de carros sem motoristas por suas vias. Li por ai, nas redes. Oxford na Inglaterra, a California e outros estados americanos. Procure no YouTube por driverless ou self-driving car e lá está o carro do Google, mas também dos fabricantes e das universidades, todo mundo testando. O conceito está na rua, é de quem fizer primeiro. E nada impede de acontecer aqui no Brasil. Alo FEI, ainda tem engenheiro automobilistico por ai? Uma vez demonstrada, a idéia absurda é razoavelmente simples. Para tudo acontecer precisamos de um automovel comum. Não é preciso ser um carro elétrico ou topo de linha. Digo mais, o carro sem motorista vai chegar às nossas ruas *antes* do carro elétrico, porque requer menos inovação. Precisamos de um carro comum com algumas adaptações: um sistema de motores pequenos, para acionar a suave direção elétrica. A aceleração eletrônica também está pronta. Um controlador para o breque, acesso às luzes e pisca pisca e pronto, seu carrinho de fábrica já tem a interface para o computador que vai reger o carro. Computadores também estão no ponto, imagino que um netbook teria potencia suficiente de processamento, memoria e velocidade, nada sério. Ao computador vamos ligar um GPS de precisão, pronto. Vamos ligar também um celular com dois chips, por redundancia e vamos ensinar este celular a manter um sinal de 3G sempre ativo, alternando entre as operadoras caso necessario. OK, vamos fazer com 4 chips de 4 operadoras... Estou descrevendo a versão brasileira do carro sem motorista. A ideia é ter uma via de internet sempre aberta, acessando os mapas, estes mapas tão completos e uteis que já usamos, prontos.
Entram em ação os hackers, que precisam pedir emprestado um software de "auto-direção" que já esteja sendo usado e testado, precisamos adapta-lo á nossa moda de dirigir. O programa que faz a porra toda funcionar. É só um programa, código, alguns Mb, mais simples que o photoshop, imagino. Vem por email.

Falta algo, o sistema de sensores que vai descrever para o computador o que está acontecendo em volta. Radares automotivos 360 graus. Em 30 segundos localizei o consórcio europeu que está tratando de normalizar o assunto... Já tem o similar asiatico funcionando, certeza.

Deveria estar fundando uma startup.

Porque não passa disto, juntar uma porção de coisas que estão prontas, faze-las funcionar de uma forma nova, sobre a qual ninguem teria o que reclamar, afinal, voce só está ensinando um automovel a fazer o que ele foi feito para fazer!!!
Um instante de sincericidio. Eu não tenho automóvel, eu não dirijo automóveis, eu nunca aprendi a dirigir. Portanto, terei lucro pessoal no caso desta história atrair seu interesse e ganancia.
Suponhamos que em seis meses, um ano, alguem consiga fazer um carro andar sózinho pela Vila Madalena. Um carrinho nacional fora da garantia. Para não causar suspeitas nos guardas de transito, foi colocado no lugar do motorista a metade superior do Ricardão, aquele manequim de fiscal da CET que foi sequestrado. Do lado dele, um empreendedor com um controle de PS2 para ir acertando o algoritmo. Depois de algumas voltas e dentro da normalidade, com arranhões e pedaladas de motoboy, o protótipo seria batizado Beta, 100% reciclado. Pintado de branco, iniciaria uma vida de taxi pirata, atendendo só pelo 99Taxi, trocando SMS com seus fregueses e recebendo só cartão. Possivelmente teria uma vida util de tres anos antes de ser parado numa blitz ou afogado numa enchente.
Outros protótipos seriam construidos. A Santa Efigenia e a Rio Branco se uniriam para oferecer os kits e a instalação dos kits. Apareceria uma comunidade no Orkut chamada "veja mãe, sem as mãos".  Santa Rita do Sapucai, MG, a cidade da eletronica seria a primeira a autorizar o uso da via pública para os auto-carros. Dois anos depois do Beta sairia no Fantástico e na Folha, seguidos de veementes editoriais contrarios à moda dos auto-carros, apesar de ninguem estar vendo nenhum problema.
Em dois anos, como aconteceu com os carros a gás, teriamos uma industria alternativa, produzindo, distribuindo e instalando auto-carros com garantia das fábricas...
Como o unico acidente fatal acontecido por culpa de um auto-carro aconteceu porque ele levou um raio, ele passou a ser percebido como seguro, na verdade, bem mais seguro, muito mais seguro, absolutamente seguro, por não beber, não ter humores nem dias piores, não ter um ser humano falivel no comando.
O auto-carro inicialmente se comportava no transito de forma normal, seguindo em frente quando possivel, dando setas antes das curvas e respeitando ciclistas, isto influiu muito num relacionamento amistoso mutuo.`
À medida que a frota foi aumentando, as pessoas passaram a perceber que dois auto-carros juntos se comportavam como um unico, parachoques colados, acelerando e brecando juntos. Coisa de quem está em rede, trocando informações na velocidade da luz. Tres carros juntos no transito começam a ocupar menos espaço. Claro que o software foi sendo aperfeiçoado para brincar de trenzinho e também para ir chegando nos limites. É divertido ver comboios de meia duzia de carros indo na mesma direção, parachoque com parachoque, no limite de 90km/h da Marginal, contornando os motoristas sem nunca esbarrar em nada. Competições intermeios em trajetos na hora do rush, que sempre eram vencidas por ciclistas, passaram a ser lideradas por auto-carros,  por sua capacidade em seguir percursos alternativos sem se perder. O seguro quase gratuito, a economia de combustivel e as revisões mecanicas programadas automaticamente fizeram com que houvesse um clamor popular pela venda de auto-carros zero. Durante a Copa, turistas de todas as nacionalidades que se jogavam na frente dos autos para ve-los parar automaticamente se acidentavam quando haviam motoristas presentes. O tema dos autos dominou a eleição e não deu outra manchete. 

Haddad reeleito: vamos acabar com os congestionamentos.


Dai para a frente vira especulação, não quero iludi-los. Forças estranhas se aliam e geram resultados imprevisiveis. Mas algumas coisas serão inexoraveis. Leis ampliando a punição financeira para motoristas bebados ou desatentos e a proliferação de autos coletivos, autotaxis e aplicativos para caronas começam a mudar o desejo de posse de carros. Pela primeira vez em São Paulo diminui o numero de carros licenciados, a cidade exporta seus carros usados para o Paraguai. A frota de autos atinge 30% e a velocidade urbana retorna para os niveis da década de 80, média de 26km/h. Camara aprova criação de faixas exclusivas para ciclistas e motos, redes sociais caem matando dizendo que não precisa, se tiver mais autos. Autos vazios são queimados por mascarados. Conflitos se espalham nos bairros. Frota de autos atinge 50% e CET inicia retirada de semaforos. Estudos apontam: menor indice médio de congestionamento já medido na cidade de São Paulo. Não gostaria de acordar agora, juro.

***

Mas acordo com um susto: esqueci da caixa de cambio no meu dream car... dai que não pode ser um carro comum, teria de se instalar uma transmissão eletronica, que muda as marchas num botão, como se usa nos carros de F1 e nos carros adaptados para pessoas com deficiencia. Isto pode adiar os planos. Fui procurar e não existe solução simples. Foi divertido mas eu disse que era um sonho, certo? Disrupturas geralmente começam assim.


terça-feira, 21 de agosto de 2012

Fones de ouvido para todos.

Tomado por decisões, resolvo escrever, com o unico compromisso de escrever como quem anda ou corre, para ativar a circulação e para ouvir música enquanto isso. Fiz muitas experiencias com fones de ouvido. Sempre gostei deles, desde um primitivo Red Devil da Koss, o primeiro fone para ouvir rock alto lá nos setenta e tantos. Graves pesados, profundos e comoventes. Com eles, amarrado por um fio ao amplificador, ouvi o creme e a nata do que se fez de bom. Era tudo vinil importado, classe, com capas lindas e cheias de informação e subtexto. Nesses fones tive orgasmos ouvindo Gavin Bryars, Manassas, Pink Floyd, Can, Van Der Graaf Generator, King Crimson, e Steve Reich, Morton Subotnik, Som Imaginario, O Fino da Bossa, Elis, Tim, Raul, Mutantes e depois Moto Perpétuo, Novos Baianos e Som Nosso.
Entrar dentro da míx, enxergar a perspectiva, descortinar o campo sonoro, essas coisas de gourmet musical são perfeitas para serem apreciadas num fone de ouvido. Em minha encarnação de produtor de estudio sempre procurei conferir a mix num fone, mesmo que estivesse mixando para o radio da kombi... o meio de expressão do pop. Ai vieram os players portateis, o walkman de K7 e passamos a usar uns fonezinhos Sony bem ruins, que caiam da orelha e não se pareciam com os possantes Senheisers, de alta fidelidade que se usava para colocar voz no estudio. Mas era bacana ouvir música andando, pela primeira vez livre. Há uns dez anos vieram os fones para enfiar dentro do ouvido, especiais para serem monitores de cantores ao vivo, com pequenos radios, sem fio, próprios para cantar com mobilidade. Achei nojento. Parecia aparelho de surdo, com todo o respeito. Custavam caro e se fazia um molde do canal do ouvido, era personalizado. Só cantor de sucesso mesmo para bancar um capricho desses.

Na sequencia estavamos ouvindo iPods e logo vieram telefones com músicas. Todo mundo aderiu ao fone da Apple e eu achei fraco, igual aos da Sony, muito parecidos, só que brancos, grande coisa. Um dia comprei um Koss The Plug, para enfiar no ouvido, com uma borrachinha flexivel que se acomodava ao contorno do buraco do ouvido. Recompensa imediata, graves, precisão, suavidade, fidelidade e volume, tudo que quero na dose certa. Gastei uns dois pares, ouvindo direto do telefone meus mp3 e flacs caprichados. Decobri sites discutindo os fones como se discutiam as caixas acusticas, com analises altamente inflamadas e usando termos como madeiras acetinadas e subharmonicos ósseos. Fiquei impressionado e comprei um par de Zaggs, considerados a melhor ferramenta para a audição móvel, com um incrivel botão para comando de avanço das faixas, copiado do iPhone, bem como o microfone embutido no cabo, para falar no telefone. Porrada! Mais silencio! Encaixava por tras, sem fios na frente, e melhor de tudo, um cabo que não se embaraçava. Caminhei centenas de kilometros com estes fones, guardados no bolso do jeans, sempre disponiveis. Relembrando, os Koss custaram uns 80 reais na Teodoro Sampaio, os Zagg vieram pelo correio por uns cento e poucos. Excelente custo e beneficio.



Mes passado fui parar na Alemanha e embaixo de um viaduto tinha uma lojinha com nomes de marcas famosas de alta fidelidade escritos no vidro: Marantz - Grado - Pioneer - Bowers & Wilkins. Entrei, movido pelo impulso de visitar como a um museu, para ver obras para apreciação. Mãos para trás, dei bom dia e fiquei olhando para um par de caixas Caracol, fascinado, hipnotizado. Num ingles teutonico, o dono me perguntou se queria ouvi-las. Não, eu disse, prefiro imagina-las em minha sala. Apenas um sonho. Ele riu, abriu um armario, sacou uma caixinha preta e disse: porque não experimenta estas, cabem no seu bolso. Bem visivel, o mesmo logotipo das Nautilus Caracol. Ja imaginei o que tinha lá dentro, um par de fones com o mesmo pedigree. Por mais ou menos 400 reais comprei o par de B & W C5 que adorna minhas orelhas agora.




 Quando cheguei em casa fiz todas as comparações possiveis e não tem erro, é musical até o talo. Tem um encaixe diferente, que se acostuma logo e que não deixa o fone se mexer, mesmo. Tudo de bom da evolução foi incorporado, o cabo que não embaraça, o botão de controle das faixas, que agora adianta, volta e repete musicas, alem de atender o telefone. E uma qualidade absurda que esta recuperando o interesse em ouvir músicas e aprecia-las como a um churrasco com faca boa e louça bonita.

E voce, qual a sua experiencia com fones de ouvido? Incomodam? Tem qualidades? Voce ouve muito alto?

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Depois da morte do CD, um Novo ECAD

Este texto faz parte do livro "O futuro da música depois da morte do CD", publicado em www.ofuturodamusica.com.br e cuja leitura recomendo fortemente, por ser grátis, por ser um apanhado de opiniões muito boas e por fazer bem ao ser consumido, como o brócolis e as sardinhas.

Separei o meu artigo aqui para dar a ele mais um impulso, já que o termo Novo Ecad anda circulando bastante e seu conteudo pode ajudar na discussão do que devemos fazer nós que lidamos com música e cultura, quando temos de lidar com essa coisa digital.

Seus comentarios são o motivo disso aqui, deixe sua marca.



E agora, o que eu faço do meu disco?

A pergunta é antiga.
Desde meados dos anos 90, quando a "informatica" democratizou os meios de produção, os artistas se viram com este dilema. Programas de subsidios á Cultura, ferramental barato – estudios e instrumentos, o espaço minguando nas multinacionais do disco, varios fatores dispararam um processo onde o musico e artista, no papel de produtor fonográfico, chegava sozinho até o disco e o momento de aflição acontecia. Abriam-se as portas do armário, atulhado com um milhar de Cds recem chegados da fábrica e se fazia esta pergunta fatal. O que eu faço do meu disco?

Um ramalhete de canções, um maço de músicas, uma dúzia de opus arrumados em embalagem para viagem, um formato que durou cinco decadas cheias de emoções e parecia a forma natural de ser, o tamanho certo e organico, suficiente para uma etapa na rodovia, para um romance, para a audição saborosa. Toda uma cadeia produtiva se formou e criou limo em volta deste costume tribal global, lançar suas músicas uma vez por ano, num disco com 12 faixas.

Mas subitamente a música se livrou do suporte material, digitalizou-se de uma vez, transcendeu o meio e se transformou na própria mensagem. Os bits imateriais percorrendo os nervos de cobre espalhados pela superficie do planeta explodiram uma supernova, todas as músicas ao mesmo tempo em todos os lugares. Inexoravelmente, vazios de conteudo, os canais de circulação dos discos de música vão secando, lojas fechando todo dia, radios só de noticias, o axé venceu pelo beijo na boca, começa uma nova era – O CD Morreu! Perplexos, músicos e artistas continuam com aquela mesma pergunta. O que eu faço com meu disco?

Talvez o conceito não esteja tão fadado a morrer quanto dizem. Talvez tenha de se metamorfosear, como as borboletas e os sapos ao saírem de sua fase primitiva. Talvez seja mesmo apenas um parágrafo na história da arte, como as gavotas e o o cha cha cha.
Depois do mundo caótico, do caos, confuso, sem nexo nem ordem aparente, virá um mundo quântico, onde todas as hipóteses são possíveis e os paradoxos convivem, prepare seu coração porque pode ser assim, quando houver banda larga em todos os lares.
Imagine um mundo em que o CD morreu, mas sobrevive. Morreu à míngua, as ultimas lojas, as de colecionadores, fecham as portas, não há mais espaço de CD nos supermercados nem nos magazines. Ainda sobrevivem as lojas que vendem Cds pela internet. Uma conferida no Amazon mostra que ainda existem um milhão de títulos no catálogo físico, em 2008. A partir de, digamos, 500 mil títulos, é apenas um nome no catálogo e se você quiser comprar, é preciso dar um tempo para se localizar o produto, pelo menos haverá uma tentativa de localizar. Já no Submarino, CDs ainda são uma sessão importante, na pagina principal, e o destaque reflete o CD como um presente: as românticas caixas de românticos artistas, o Padre campeão de vendas, Madonna e Rolling Stones. Uma busca rápida mostra que o fundo do catálogo do Submarino é mais superficial do que no catálogo da Amazon. Parece que só está a venda o que existe fisicamente num estoque de gravadora, e isto, como saberemos, tende a diminuir.

Vamos dividir o mundo em dois. Deste lado, numa pilha, todos os CDs legitimos, que tenham metadata, um CNPJ, e um endereço para contato. Do outro lado, outra pilha com todos os CDs restantes, que não preencham os três requisitos.

Por partes: metadata - dados além da música - é aquela informação que estava na capa do disco, na embalagem do CD e que se abre quando você clica num CD, numa loja de internet. Metadata contem a arte da capa, a ordem das faixas, seu tempo e nome, autores, o selo, a data de lançamento etc, todas as informações que haviam na capa do disco, e que agora fazem parte de um arquivo que anda junto com as faixas do CD na venda de download. Metadata completo implica que alguem se preocupou em ter os contratos e autorizações com todos os envolvidos: autores, editoras, licenciantes etc, todos devidamente identificados como nas fichas técnicas dos CDs e LPs.

Metadata completa e com CNPJ já é um pouco mais dificil, implica que havia uma empresa associada a este produto, e que esta empresa fornece o CD que pode ser vendido numa loja eletrônica. Sem CNPJ, sem Nota Fiscal, é uma venda informal, portanto, as lojas serias não vendem CDs sem Nota. Por fim, é preciso que esteja alguém num endereço comercial, para atender aos pedidos das lojas, dos discos vendidos pela internet, já que ninguém mais quer ter estoque. Assim, chegamos à situação atual, onde só discos distribuídos formalmente estão à venda nas lojas formais, que por sua vez são cada vez menos pontos de venda de música, mesmo na internet, o que estrangula cada vez mais a cadeia produtiva. Neste trecho do circuito, só vende o que vende, o que é comercial e tem demanda.

Voltando ao nosso mundo dividido em dois, às duas pilhas. A primeira pilha de CDs, os legitimos, tende a diminuir rápidamente, á medida que se acaba o estoque fisico existente, de todos os comerciantes legais, majors ou independentes. O que vende pouco vai virar definitivamente mercado de nicho, onde estarão escondidos os colecionadores e aficionados de generos ou os fâ-clubes. Os donos e vendedores destes discos terão de conhecer literalmente cada comprador, mesmo com todas as facilidades da internet. O cidadão comum, que um dia comprou discos por impulso, na cesta de ofertas do supermercado, segue em frente para gastar seu dinheiro em biscoitos recheados.
A segunda pilha, dos CDs informais, autoproduzidos aumenta, pode-se dizer exponencialmente. Uns feitos em casa, aos borbotões e vamos deixar de fora os criminais, as falsificações. Outros podem ser discos que pagaram direitos aos autores e impostos na fábrica, mas até por serem frutos de incentivos fiscais, do esforço de autogestão de produtores e músicos, das facilidades de produção de conteudo, não carregam em si a habilidade de se comercializar, de se inserir no mercado, não são "produto", neste sentido legitimo em chamar um disco vindo da industria fonográfica de produto. São artesanato, são como as cópias de gravuras, ou esculturas reproduzidas de moldes. Trabalhos artisticos e culturais, contidos num objeto nascido para ser comercializado, num formato identico ao disco da loja, mas que não pode circular, não é mercadoria, não tem Nota Fiscal. Haja armário!

Nem todos estes discos desta segunda pilha, a dos ilegitimos, choram pela a falta de um sistema de distribuição, a falta de interesse do comerciante ou a falta de espaço na midia. Uma boa parte já circula e garanto que é a parte saudavel, a que irá crescer, a partir da iniciativa dos produtores e músicos de irem diretamente ao público, na venda depois do show, direto aos fãs, habito obrigatório daqui pra frente. Pode ser necessario um terremoto fiscal para se alterar o sistema de forma que isto não seja considerado uma ofensa aos cofres públicos. Acredito que desonerar o disco de impostos é o que faz mais sentido, como um dia já se fez para o livro, para se pensar em cuidar do problema do conteudo e não do problema das cópias, irrelevantes em tempos de cornucópia - os bens imateriais que não tem suporte material, a cópia perfeita, a multiplicação dos peixes digitalmente. Toda a força para esta iniciativa, isentar a produção musical de impostos, já é um começo.

Mas o disco não é o formato, a midia, a bolacha. No LP cabem 36 minutos de música, no CD cabem 72 minutos. Apesar de no CD caber muito mais do que 12 músicas do LP, foi preservado o tamanho do ramalhete de músicas, por mera convenção. O disco para os editores tem 14 músicas no máximo. Tanto faz a razão, um disco pode ser um momento na vida do artista ou uma dose habitual para o consumidor, como queiram. Um disco é também apenas o seu conteudo, a informação pura, 12 ou 14 arquivos virtuais numa pasta imaginaria, que ficam juntos no mundo digital como andavam no mundo fisico. Mesmo que se separem para a venda de faixa em faixa nas lojas de download, continuam sendo faixas que nasceram num disco. Continuam sendo lançadas ao mundo de dentro de discos, uma faixa só não tem impacto, não impressiona, não é? Pode ser, mas que o Compacto, o single, já fez barulho, isso fez.

Para voces verem como será a moda quantica, vamos pegar todos os discos daquelas duas pilhas de CDs, - sem mexer nelas! - e criar duas outras pilhas, a dos discos que estão á venda para download na internet e a dos que não estão. Ao se eliminar o estoque físico na venda pelo download, desapareceria um grande complicador, dizia a Nova Economia em 2005. Agora, estes discos autoproduzidos teóricamente poderiam ir ao mercado assim que ficassem prontos no estudio, sem passar pela Era Industrial, sem fábrica, com muito menos investimentos e recursos. Não é exatamente tão simples porque precisam de metadata completa, até para que se consiga vender em sites fora do Brasil, onde a música brasileira é bemvinda e vende bem, sim senhor. E fazer metadata é um, perdão, saco, requer precisão contabil e cartorial juntas, precisa seguir formularios mais complicados que o Imposto de Renda para preencher. E por isso, parece que a necessidade de gerar metadatas não atinge os autoprodutores com a urgencia que deveria atingir, pode ser a tal da Brecha Digital, profunda barreira causada pelos nossos bits em portugues não traduzirem os bits em ingles. E além disso, por causas ignoradas e varias, download não vende no Brasil, quase nada comparado ao Resto do Mundo. E agora temos um problema nacional: muito pouco do catálogo brasileiro está à venda na rede.

O que poderia ser um fator de sobrevivencia do disco não veio trabalhar a nosso favor. Faltou tutano aos independentes para gerar os metadatas completos, faltou orçamento - e vontade - para trazer à venda digital os gigantescos catálogos brasileiros das multinacionais. Pior, mais um arrepio, o catálogo de downloads á venda é o próprio catálogo de CDs á venda, vai minguando junto. O terror ás vezes nos fará reagir. E ainda por cima, os downloads sempre foram muuuito caros no Brasil, por varias razões, inclusive por causa de impostos e um preço minimo estabelecido pelos representantes do autores. Agora talvez não seja mais possivel refazer o percurso de sucesso do iTunes com nosso catálogo digital brasileiro. A teoria da Cauda Longa, do fundo de catálogo gerando tanta receita quanto os sucessos, não se aplica hoje á música brasileira em geral. O digital em breve responde pela metade das vendas, mas não aqui. O Brasil, importante mercado no mundo fisico dos LPs e CDs, não existe no reino digital. E agora será a vez de quem perguntar? Repita comigo: mas o que eu faço do meu disco? Quase ouço uma resposta em coro celestial.


Mudando de marcha e relembrando, entre 1980 e 1995, houve um movimento de consolidação do mercado fonografico, coisa considerada natural e saudável pelos que entendem que o mercado se governa. Recomendo o livro "Os Donos da Voz", da Marcia Tosta, que se deu ao trabalho insano de juntar dados confiaveis sobre esta pré história da arte no Brasil. De algumas dezenas de empresas nacionais que dividiam entre si a responsabilidade de cuidar de centenas de artistas com vida ativa, nos múltiplos gêneros da diversidade brasileira – e italiana, francesa, inglesa e mesmo americana – no inicio dos anos 90 só haviam 5 corporações mundiais cuidando de 80 % de todo o dinheiro de toda a música. Isto era informação corrente na época, fazia parte dos relatórios da IFPI. Hoje, as majors são 4, cuidam de um dinheiro que diminui e se aproxima do valor de 1990, depois de um auge em 2000, e este dinheiro delas continua sendo 80% do mercado, com poucas dezenas de artistas sob contrato. Buldogues tenazes que não largam o osso.

Pouco antes do inicio do processo de centralização do mercado fonográfico – brasileiro e mundial – havia um ecossistema estável que refletia as conquistas da era industrial. Haviam fábricas de LP no Recife, em Porto Alegre alem de SP e Rio. Uma gravadora nacional atingia 3 a 4 mil pontos de venda cadastrados como lojas de disco. Havia inadimplência, mas o sucesso era o melhor cobrador. Quem quisesse vender o sucesso pagava suas contas em dia. Por conta da inflação, vendia-se à vista. Assim, um primeiro disco de um artista podia vender 3 a 5 mil copias no lançamento, um por loja, á vista. Como as revoluções da época se propagavam pela música, desde os anos 50 o cenário era totalmente mutante, não havia lei sobre o que poderia ser sucesso, uma hora seriam os italianos e suas canções modernas, no momento seguinte seriam negros americanos e o soul recém saído da igreja, ou ainda os rapazes e moças prafrentex que anunciavam mais e mais novidades, o samba canção, o twist, o ie ie ie ou a bossa nova. Cançonetas picantes, barítonos suingados, metais em brasa, a novidade fazia a vitrola girar e os discos tocavam e vendiam. Neste cenário risonho, aventureiros fundaram impérios e as rádios obedeciam às paradas de sucesso, pela contagem de telefonemas pedindo bis.

Organico e inocente, mas eficaz.

Antes deste cenário idílico, há uma luta de décadas pelo predomínio do formato, onde dezenas de métodos de gravar e reproduzir a música disputaram o seu lugar no mercado, até que se fixaram aos poucos, o disco de 10 polegadas e 78 rotações, à base de cera de carnaúba, com uma musica de cada lado, entre 1930 e 1950, quando surgiu o plástico vinil, vindo da industria da guerra e que gerou um produto melhor, o LP de 12 polegadas com 6 musicas de cada lado e seu filho menor e mais urgente, o disco compacto de 7 polegadas e 1 musica por lado. Cada música tinha 3 minutos desde sempre, porque era o que cabia nos cilindros de música, da Casa Edison , que circulavam deste 1890 e que foram substituídos pelo *disco* de 78 rotações, também com três minutos por lado. Canções de três minutos levaram 100 anos se fixando como modelo para música empacotada. O compacto com uma música fulgurou no céu como um cometa transportando brilho até o final dos anos 80, onde a humanidade conheceu pelo compacto simples as pérolas “Como Uma Onda No Mar”, “Voce Não Soube Me Amar”, “Sou Boy” e "Inútil", penúltimos hits que o compacto revelou, de uma em uma.

Forma e conteúdo também se confundem neste período do LP, as leis de mercado vigorando de forma linear e simetrica. Vender 12 músicas é melhor do que vender duas numa única venda. Este é o argumento que define o fim do 78rpm - e depois o fim do compacto. Po isso deu-se o surgimento do LP como produto de massa, a meta final da era industrial, a era da copia perfeita. Assim, durante os anos 50, pós guerra, quando se implementava a sociedade de consumo, conseqüência lógica da capacidade industrial multiplicadora instalada nos Estados Unidos, junto com rádios, refrigeradores, aspiradores de pó e liquidificadores, vieram as Victrolas, Electrolas, e os maravilhosos discos Long Playing, tudo moderno, plástico, e perfeitamente iguais.

No primeiro momento dos 50 há um repertorio anos 30 e 40 sendo transcrito da carnaúba em 78 rpm para o vinil em 33 rpm, uma parte gerando muito lucro por estar já gravado, era só mudar de formato e outra parte se refazendo na transcrição, e vieram muitas orquestras sonoras com ingredientes eufóricos latinos, mambo, samba, cantores de vozeirão teatral e topetes puxados no pente, mas muito conformados ao fim do período vitoriano, modestos e solenes, ecos ainda do começo da republica, de antes da guerra.
De algum lugar no espaço, um marciano traz a receita da guitarra elétrica, caída no meio de uma plantação de algodão, e os americanos são invadidos por seres que produzem suingue sem orquestra. Aqui no Brasil, o caos reina, Darius Milhaud, Leopold Stokovsky e Marcel Camus semearam a inquietação e os acordes com sétimas e nonas, em Taubaté a Celi Campelo descobre o jeito certo de estalar os dedos, na Bahia estuda-se violão e instaura-se o fenômeno da primeira singularidade, quando fica suspenso o impossível e o mundo muda violentamente, num surto de criatividade que surfa a base instalada de rádios, vitrolas e poucas TVs . O final dos 50 anuncia os anos 60, onde tudo funcionava em ordem, os artistas tinham chances, as chances eram razoavelmente bem distribuídas e o gosto predominante era o da maioria, que se divertia em descobrir o que queria entre as ofertas. Assim, apesar das revoltas e movimentos sociais, atravessamos décadas bem redondas e formativas do catalogo geral que circula pela rede hoje. Jazz, rock e pop, o brega, a disco dance, boa parte dos clássicos, a bossa nova e a música popular brasileira, tudo isso se consagrou como repertorio depois do 78 e antes do CD. A Era do Vinil, se posso batizar. Como disse o Durval no filme Durval Discos, sobre a polemica CD versus LP: "O som do CD pode ser melhor, mas a música...."

A tecnologia sempre vence. Depois de vender mais músicas, depois de criar o ramalhete de doze canções, o que poderia superar o LP? A resposta certa é: um formato que conseguisse a reprodução da Quinta de Beethoven sem precisar virar o disco. Juro, esta é uma das causa do sucesso do CD como formato, os 72 minutos suficientes, e caber no bolso do paletó do Akio Morita O CD, fruto de uma aliança industrial quase impensável entre Philips e Sony, nasce mórbido, disposto a acabar com tudo, a fim da reformulação do universo musical, que precisaria ser refeito no formato digital, uma nova industria. Não era uma evolução natural, como o LP que havia sucedido o 78, ambos analógicos e dividindo o mesmo toca-discos. Venceu a tecnologia mais barata, de leitura de pontos e buracos num disco girando rápido. O disco teria de ser pequeno, brilhante e precisava ser guardado numa embalagem sem atrito. Os primeiros CDs literalmente se desmanchavam na mão, saia o metal nos dedos. O objeto decretou o fim da capa de disco como forma de arte complementar à música, com aquela capinha feia de CD, coberta pelo plástico grosso da eufêmica caixinha porta jóia.

Mais mórbido ainda, o conceito digital nasce contendo a copia perfeita, sem o problema das “gerações” causado por cada um dos processos da gravação sonora. A primeira geração ao captar o sinal pelo microfone, a segunda ao copiar o sinal durante a mixagem das pistas do estéreo, a terceira ao cortar o acetato, a quarta ao gerar as fôrmas do vinil, a quinta ao fundir o vinil, a sexta ao rolar da agulha no vinil, gerando novamente ondas sonoras na sétima geração. A cada conversão de formato físico, há uma deterioração da realidade captada. No sistema digital, assim que o sinal sonoro é convertido em eletricidade, já é transformado em pulsos digitais binarios, zeros e uns, que se transportam quantas vezes for preciso, mudam de estado e se recuperam, saindo perfeitamente iguais no final do processo, digamos assim. Mais ainda, o digital nasce a partir da procura da copia perfeita e da transmissão perfeita, com a menor energia e sem atrito, sem se perder nada em todo o processo de reprodução e transmissão, fruto de altas especulações da Teoria da Informação, no ambiente da Guerra Fria, que também trouxe a rede que não cai nunca, a Internet. Voce consegue imaginar um universo onde alguma coisa possa ser criada, copiada, transportada, transformada sem custo, quase sem gasto de energia, sempre, a cornucópia farta e inesgotável? Coisa de doido. Posso ver o cientista pirado esfregando as mãozinhas, conseguimos, conseguimos.

Imagino que os Administradores Fonográficos consideraram isto uma vantagem e não uma ameaça. Afinal, num mundo analógico, só Eles tinham as ferramentas para lidar com o novo universo digital. Gravar, reproduzir, manipular sons digitais só em máquinas bem caras, Sony ou Philips, durante um bom tempo foi um monopólio industrial muito bem gerido. Alias, cada CD fabricado paga royalties até hoje. Pois Os Caras resolveram que iríamos trocar de formato novamente, como havia sido feito da carnaúba para o vinil, simplesmente saindo do LP e transportando o catálogo para o digital CompactDisk . Pequena confusão natural, na verdade eles estavam transportando o catálogo do reino analógico para o reino digital, uma pedra filosofal transformando lixo em ouro, ou vice versa. O CD, hoje sabemos o que é isso, era apenas a mídia e a mídia, ora, a mídia muda de shape a cada 15 minutos!

Em 1980, já um produtor musical com algum sucesso e boa remuneração, resolvi investir no digital por passatempo, por ter alguma experiência prática com um modestissimo computador pessoal Sinclair, onde fazia calculo de custos semanais na época da inflação de dois dígitos por semana, primeiro investindo num Apple IIe, de saudosa memória e em seguida num portentoso IBM PC AT, com um monitor colorido, que custou um carro quase do ano. Enquanto isso, no estúdio, o reino digital se aproximava da música, sedutor. Primeiro, com o sampler, que tirava uma foto de um pequeno som, uma amostra, e nos deixava brincar tocando como notas num teclado, ou um conjunto de pequenos sons que reproduziam uma bateria e que podíamos programar para tocarem em sequencia, mecanicamente, perfeitamente no tempo, incansavelmente, sem parar até hoje.
Logo em seguida, os amostradores digitais já conseguiam reproduzir coisas maiores, sons de piano, sons de naipes de cordas, aquele grito do James Brown. Até que um dia apareceu um gravador de fita digital, um trambolho que gravava o sinal digital de audio, músicas inteiras em fitas de vídeo, o som era limpo, transparente, mas montar o disco era uma aventura numa ilha de vídeo, olhando riscos na tela. As coisas foram indo digitalmente até o dia que numa reunião houve a sugestão de lançar um disco primeiro no formato CD, o "Benjor" das mãos, na WEA. O dia em que o slogan mudou para "À venda em LP, K7 e CD". Nas lojas, o que era uma gaveta de CDs virou uma sessão inteira e depois uma loja especializada em CDs. Como toda novidade, aceitamos e pagamos bem, comprando tudo de novo, até o ponto sem volta, quando a maioria se livrou dos seus LPs, quinze anos fazem.

Nesta altura, o reino digital, como um prium,a proteína da vacalouca, se reproduzia matando toda resistência, pela sua própria eficiência de desenho. Durante a década 85 a 95 o digital invade o sistema telefônico, a industria, o comercio, o sistema financeiro, a Nasa e o DoD. Cai o muro de Berlim e chove dinheiro para implantar a Internet para fora dos confins da Segurança Nacional americana, as universidades se transformam em asfaltadores da autoestrada da informação, filha mais bela do reino digital, a WWW, a rede do mundo todo.

Em 1995 consegui uma senha para ter acesso pela USP, usando uma colcha de retalhos de um Mosaic e alguns arquivos de configuração. Até então, não era incomum conectar-se a um BBS americano para dialogar com colegas sobre as mazelas de masterizar um CD, verdadeira bruxaria. A partir da Internet, Usenet e os grupos e listas do inicio da rede, a informação sobre o digital se espalhou como epidemia, cada contato multiplicava a infecção, programar, virar a noite fazendo funcionar um programinha qualquer, algoritmos se formando e se espalhando abertamente, publicamente, um dominio público. Palavras novas foram surgindo e se incorporando ao dia a dia, email, www, mp3, napster, veio a explosão global, milhões de usuários, bilhões de arquivos, trilhões de copias – perfeitas – circulando, sem "gastar nada".
A industria fonografica, em algum lugar dos parágrafos anteriores, ao se consolidar em grandes corporações, perdeu o "olho do dono". As gravadoras, em sua totalidade, como os bons restaurantes, dependiam do gosto apurado do chefe, que definia estilos, consagrava artistas em que acreditava, investia ás vezes ao longo de décadas, criando obras seminais e fundadoras de nossa cultura, sem necessariamente vincular o sucesso ao numero de vendas. Num equilibrio saudavel, bons vendedores sustentavam bons artistas. Ao se consolidarem e transferirem o critério de sucesso para o valor das ações na bolsa, para o dividendo a ser pago aos acionistas, venceu a lógica desviada do mercado e suas leis de oferta e demanda, valida agora também para o conteudo, vigorando apenas um raciocinio contabil de custo beneficio imediato, a ser avaliado no fim do trimestre. André Midani mostrou isto bem em sua antológica entrevista á Folha, onde explicou o jabá, vitamina do lucro rápido.

O discurso pós globalização e centralização da industria fonográfica foi reduzido a alguns aforismos profissionais que podem ajudar a entender as posturas da industria e sua convivencia com a internet. Vender muito de poucos artistas ( é melhor que vender pouco de muitos artistas). Vender cada vez mais dos mesmos artistas ( portanto, vende quem vende). Vender para menos compradores que compram cada vez mais ( chega de vender de loja em loja, o negócio é vender para grandes magazines, supermercados e rede de lojas, custa muito menos e o risco de inadimplencia é menor). Quando isto estava implementado de norte a sul leste e oeste, a indústria teve um crescimento financeiro gigante, o disco quadruplo de platina, alguns artistas alcançaram visibilidade e mercado global e em meados dos anos 90 já se enxergava o erro da falta de desenvolvimento de novos artistas nas majors, e o fim da distribuição capilar, que entregava discos competentemente quase que em toda esquina. Os independentes apareceram e cresceram, para abrigar as tendencias e artistas excluidos do processo de otimização das vendas. O pirata organizado tambem apareceu e cresceu, suprindo primeiro o K7, aprendendo sobre logistica e depois vendendo Cds na esquina, preenchendo espaços não defendidos, posições abandonadas.

Ao se defrontarem com a internet do mp3, em 1996, nas gravadoras não havia ninguem de plantão para dialogar com a novidade, apenas advogados tentando erguer a proteção, a defesa contra o "inimigo", que queria música, muita música, toda a música do mundo, agora ao alcance, disponivel em listas organizadas por generos minuciosamente como no Audiogalaxy, comentadas, recomendadas pessoalmente, com mecanismos de parada de sucessos transparentes e verazes, o numero de pessoas que estavam disponibilizando as músicas. Mas fechou-se o Napster como opção juridico financeira, sem perguntar para o operacional. O raciocinio de um produtor fonografico seria seguir uma lógica anterior de muito sucesso: AM, FM e MP3, tudo a mesma coisa, são meios de divulgação. Mas a melhor defesa escolhida foi processar e dizer que era crime disponibilizar suas músicas para outros ouvirem. A partir daí, a derrocada. Perderam todos, os autores, os músicos, os produtores e os donos da industria, toda a cadeia produtiva, debilitada pela centralização dos anos 90, caem todos, sucumbem ao avanço do reino digital, a lógica da cópia e da transmissão perfeita, a economia da fartura, a cornucópia.
Deu nisto.Os maiores armários já inventados, cabendo quase toda a música gravada numa caixa de sapatos hoje, amanhã num cantinho que fala com o espaço, meu celular, uma gota na nuvem.

A música vai bem, obrigado. Na internet, livre e solta, e fora dela. Os generos se fortalecem, novos interpretes, orquestras, produtores, espetáculos. Veja o Auditório Ibirapuera, exemplo de projeto de sucesso, de bom investimento em música, e que gera produtos, DVDs, CDs, programas de TV, impulsiona carreiras, chama a atenção do público para os músicos e para a música de forma generosa e com consistente retorno na imprensa, na imagem pública da TIM, a mantenedora. Os artistas, com aquela pergunta entalada na garganta, olham para o público, com a esperança de vender seu CD no final do show. O espetáculo renasce, é o momento raro, escasso, um artista tem talvez 100 espetáculos por ano, é um instante crucial a favor do artista. Sim, funciona. No Auditório Ibirapuera, pode se esperar vender o CD para um tanto do público, aficionado e extasiado com um espetáculo impecável. Podem ser 250 discos num fim de semana, se esta moda se consolida, nas 40 semanas uteis do ano musical podem ser 10 mil discos por ano diretamente vendidos pelo artista, o disco souvenir. Neste cenario de uma nova cultura da música sem vinculos com a indústria fonográfica, o CD é um artesanato, e , mesmo querendo pagar os autores, será preciso reconstruir um novo ECAD que pense em como ir buscar este dinheiro, que por ser mínimo, pode desaparecer do radar.

Na verdade, um Novo ECAD deveria ir buscar uma solução mais ambiciosa, mais ampla e abrangente, repensar o mecanismo de cobranças, ir buscar o valor devido á música em todas as transações que a música acrescenta valor, por menor que seja. Repensar a partir da falencia do modelo da venda da cópia e do privilégio da difusão, estes sim, cadaveres insepultos. Várias teses circulam na rede, por exemplo recolher um dinheiro de todo mundo, telecoms e consumidores, um pouquinho por ano, uma unica taxa de música, paga na conta do celular, alguns reais para cada um dos centenas de milhões de celulares já dá um numero próximo do que o ECAD arrecada para os autores hoje. Se o ECAD distribuisse tambem para gravadoras, músicos e artistas, com mais alguns reais por ano já teriamos um numero parecido com o faturamento da industria fonografica toda. Então, pelo preço de um CD por ano, por exemplo, poderiamos ter toda a música que conseguissemos consumir, remunerando todo mundo. Será necessaria uma discussão nacional, com todos os envolvidos, uma Assembléia da Música, para se refazer com urgencia um modelo que levou décadas sendo tecido e que se desfaz como modelo financeiro viavel, por pensar apenas na venda da cópia e no privilégio de transmissão como unicas referencias de valor na música. Um Novo ECAD que consiga interpretar as novas paradas de sucesso, medir o interesse do público, a quantidade de vezes que a música circula pela rede, muito maior que via RTV ou cópias físicas e a partir dai estabelecer uma distribuição de direitos que contemple mais rigorosamente a realidade.
Os artistas e seu público, estes continuarão se procurando e se achando, por afinidade, por interesse. Com ou sem intermediarios, que são importantes e realizam os sonhos.

O disco poderá ser substituido por outros ramalhetes ou maços de canções. A obra inteira do artista poderá andar junta de uma vez só, como nas caixas de Cd - ou nos arquivos torrente. Mais ainda, todos os formatos poderão conviver, o CD, o LP de vinil, o mp3, arquivos minusculos e os sem perdas, e ainda o 96Khz, formato esotérico, a máxima fidelidade, som em Alta Definição, que já existe nos estúdios e que poderá florescer no DVD blue ray e na banda larga. Em versões para tocar no celular, no som do carro, em cartões de muitos gigas, em formatos que vão aparecer. Tudo junto, o gratis virtual e o absurdamente caro, como LPs de 200 gramas a 100 dolares. Muita coisa de graça, para divulgar. Na verdade o impulso tem de ser, como sempre foi, o máximo possivel de execuções ou audições gratis, é a forma de acostumar as pessoas com o repertorio novo, e monetizar o que tem valor, o privilégio, o único, o raro. O dinheiro está onde sempre esteve, inclusive no bolso dos espectadores.

Um dia, os artistas e o público irão se acostumar com outra lógica, onde a carreira de um artista não será mais a sua carreira fonografica, haverão outros marcos no percurso. O Wikipedia vai achar outro modo de organizar os fatos na vida de um artista de sucesso sem ser pela discografia. Talvez o mundo pop tenha pressa em ser clássico e de dominio público. E a pergunta certa será feita: o que será da música que eu faço?
Pena Schmidt
Auditório Ibirapuera, junho de 2008.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Uma economia de individuos com força de indústria.

Parece que preciso de um convite se não este blog não se movimenta.

Agora foi KK Mamoni, excelente profissional, fechando os ultimos pontos da Feira Música Brasil 2009 e me encomendando um pequeno texto para o catálogo da Feira, quase pronto.
Saiu no tranco, na noite da véspera do prazo. Como é 100% oficial e formal, tento manter meu idioma próximo do portugues, não invento muita moda, espero que só os colegas vão ler, não é? Esta engomadinho, mas o final ficou reverberando aqui dentro, fazendo um acorde com o que anda sendo escrito nos ultimos dias em blogs e grupos onde se discutem as coisas da música. Vejam se me entendem:


" Para nós que vivemos de Música, todos os que participamos da cadeia produtiva, ir a uma Feira de Música é como ir a um casamento daqueles bons, uma reunião de família onde revemos até os primos em terceiro grau.

Afinal, a natureza do nosso modo de vida é meio nômade, somos itinerantes. A Música está em constante movimento, sempre na estrada ou então em mutação do ambiente de trabalho, uma hora compondo, ensaiando, outra hora no teatro, depois na televisão, na oficina de conserto, na sala de concertos ou passando horas em frente a um computador, preparando mais um projeto, possivelmente no saguão de um aeroporto.

Assim nos encontramos por ai, geralmente muito ocupados e de raspão, trabalhamos alguma horas juntos e nos separamos. Às vezes são anos sem voltar a um mesmo palco, acompanhamos de longe os progressos na carreira, os sucessos e as mancadas, as bandas que se desfazem, as duplas que voltam, discos e repertórios novos, um premio, um instrumento diferente, essas coisas são os assuntos de nossas conversas em transito.

Tem sido sempre este o melhor motivo para voltar às Feiras de Música, fazer delas o motor social que une todos: a classe artística e a classe produtora, os técnicos, os executivos, os que querem ser artistas e os que foram artistas e agora são gestores, enfim é um momento de polinização e cruza. Rever os velhos camaradas de todas as instancias desta vida profissional, conhecer e se fazer conhecido, apertar as mãos de rivais, conviver um pouco como clã, como tribo, como família. Num mundo em que competimos por tudo, aqui na Feira de Música dividimos calorosos a mesa apertada ou um convite para a festa na sequencia. É na Feira de Música, em todas elas, que percebemos que pertencemos. Temos um nexo.

Claro que os trabalhos são produtivos e todos os momentos possíveis são eficientemente administrados, até os os intervalos do café são instantes valorizados, servem para passar a limpo a agenda de contatos e marcar reuniões, levantar novas possibilidades na carreira. Para quem lida com Música, conversa é trabalho, diversão e arte. Na FMB2009, para mim e para muitos, a descoberta artística foi notável, pelo ímpeto da feira em apresentar um elenco enorme, desafiado a mostrar seu talento para um grande público que ia conhecendo os artistas um depois do outro. Para os músicos e artistas que passaram pelo palcão no Marco Zero, funcionou como uma certificação, uma prova de madureza, de qualidade da entrega, mostrando altos valores de produção.

Nos stands, base e ponto de encontro, idéias circulam, os discos de vinil eram novidade, instituições se apresentam. A Música tecendo sua teia com outros parceiros, apertando os nós, garantindo a qualidade e propagando o ideal. Desta forma, aproximando e nos mantendo juntos e misturados, é que se fortalece uma economia criada por indivíduos e que tem força de industria."

Pena Schmidt
Superintendente
Auditório Ibirapuera, São Paulo.

sábado, 13 de março de 2010

Defendendo a Música com unhas e dentes.

..."E agora queria passar a palavra para o Pena e para o Daniel. " Trinta pessoas olhando em minha direção. Quase uma hora da manhã, numa caverna urbana em Brasilia, uma passagem entre dois prédios, uma assembléia reunida sentada no chão olha para mim e espera. Em alguns segundos retornei da viagem que estava tendo, olhando aqueles rapazes e moças se articulando, distribuindo tarefas, relatando cada um sua parte na experiencia. Emocionados e decididos, uma cena que pode ter se repetido em muitos momentos da História. Minha viagem naquele momento era descobrir o que seria mais parecido com aquele momento ali em Brasilia. Jovens reunidos na madrugada, com um plano de ação se desenrolando e se encaixando em outros planos que tambem se desenrolavam ali ao lado. Que grande poder tem estas vidas se preparando para uma jornada comum. Eles podem chegar até a Lua! Marte! A conquista do universo, tudo é viavel quando se tem a vontade e a vida pela frente. E eu tinha que dizer alguma coisa ali, naquele momento. Amarelei e pedi para sair. - "Eu escrevo no meu blog, leiam lá". Daniel Zen, um jovem como eles, Secretario de Estado da Cultura do Acre, tomou a palavra, eloquente e elegante, mostrou sua satisfação com o esforço de todos e disse algo importante. Que mesmo sendo uma assembleia discutindo a construção da Música, na verdade todos eles estavam ali se preparando para outros papeis, tão importantes, que teriam de desempenhar como cidadãos. Fui dormir tranquilo porque o que precisava ser dito havia sido dito.

Por isso, e por que fui cobrado de minha promessa, vou ter de caprichar aqui para as testemunhas oculares deste rascunho ao vivo.

Brasilia não perdoa os amadores, e só com muita concentração é possivel escapar do calor, do ar seco, do concreto, da falta de caminhos para pedestres. Estavamos trabalhando num parque de tendas, próximos do chão vermelho, com a chuva batendo forte na lona e interrompendo. Uma centena de pessoas representando os estados todos e quase todos os setores da música, em debate permanente e sem trégua. Varias histórias retrançadas em alguns anos de associativismo, militancia em sindicatos e cooperativas e essa coisa nova, os coletivos, meio trabalho solidario, meio clube, meio célula revolucionaria. Todos ali, por varias razões, estavam praticando politica representativa, democracia participativa. Os trabalhos se desenrolariam em tres tarefas: uma eleição de delegados para a Conferencia Nacional de Cultura, uma discussão e escolha de 5 diretrizes da Música para serem incorporadas á pauta da CNC e uma eleição de um Colegiado de 15 delegados e seus suplentes, que irá participar nos trabalhos do Conselho Nacional de Politica Cultural. Era uma Pré-Conferencia Setorial da Música. Odeio a falta de poesia dos títulos, mas é trabalho necessario, cidadão, e o momento me fazia acreditar na veracidade das intenções. O povo estava ali para dar um jeito nas coisas da Música como modo de vida.

Pode levar um tempo para se recuperar de uma interrupção, fui ali. Dias depois retomo esta conversa indo na mesma direção, num avião de volta a Brasilia. Corta para algum dia em 2004. Junto com Natale estava viajando por todas as capitais do Brasil, um titulo raro, que requer muitas horas de voo e muitas passagens por Brasilia, conexão obrigatória. Nessa época faziamos uma tourne do projeto Rumos, mapeando a música, indo ao encontro dos músicos e produtores. Natale já tinha um traquejo, estava voltando aos lugares e já tinha desenvolvido uma rede de contatos. Eu era presidente da ABMI e meu papel era fazer uma palestra sobre o movimento associativo. A ABMI nasceu dentro do Itaucultural, num encontro de produtores de discos do Brasil todo, em 2000. Fazia minha palestra, basicamente explicando que vinha uma nova ordem fonografica pela frente e seria necessario se reorganizar a partir de coletivos, associacões de pequenos produtores, que só assim poderiam sobreviver ao caos prenunciado pelo desmanche da industria. Só se organizando em coletivos seria possivel negociar com o Municipio, o Estado e a União e ir buscar melhores condições para a Música Brasileira. Acenava com as facilidades incipientes da internet, as possibilidades da telefonia celular chegando a todos os brasileiros e com o futuro digital, mais simples e barato que o passado analógico da indústria fonografica.

Fazia minha palestra, participava da mesa e dos debates durante o dia todo. Saiamos para comer com o pessoal local, fazendo amigos. Na maioria dos lugares encontravamos um ambiente de insatisfação e impotencia, pela falta de informações ou de recursos. O máximo que o governo se aproximava da Música era em editais de patrocinios a gravações de discos, depois disso era problema seu. O que havia de organização eram alguns selos, pequenas empresas fonograficas fora do Rio e SP, alguns com decadas, alguns movimentos de resistencia, algumas produtoras de bandas de rock, alguns selos de música instrumental e era isso. Quase nada de coletivos, sindicatos, associações.

Em Cuiabá, fizemos nossa palestra, um nivel de participação surpreendente, mais atento. Vamos sair e visitar um lugar recomendado, o Espaço Cubo, uma produtora comunitaria. Uma comitiva, pessoas do pedaço e nós. Uma casa num bairro classe média, sem sinais por fora. Na sala, logo na entrada, estantes com livros, uma parede cheia deles. Uma biblioteca para empréstimos. Mudei a marcha mental, admirei aquela biblioteca e pensei em todas as estantes de livro que fizeram a minha juventude enxergar o mundo lá fora. Este lugar já se colocava em outro patamar, já não me parecia mais uma produtora de bandas de rock, havia ali uma proposta de dividir com quem chega, partilhar uma estante de livros, que coisa mais simbólica. Dai para a frente, a visita foi se tornando um espanto atrás de outro. Um nucleo de produção, um núcleo de artes, um nucleo de informatica, tudo muito simples, mal acomodado mesmo, mas operacional. Aqui as bandas se produzem, preparam seus espetáculos, fazemos festivais, já temos conexões e apoio da prefeitura, estamos melhorando nossa sala de ensaio, e temos nossa moeda, o CuboCard, que circula entre as bandas e o comercio local. Em algum momento desta fala de apresentação que o dirigente Pablo Capilé fazia, me perdi dos detalhes e fiquei saboreando aquele modelo especial de empreendimento. Uma proposta utopica, de construção de realidade alternativa, movida a café e dias de 25 horas, jovens com uma erudição surpreendente, economistas na jogada, pés firmes no chão. Pode dar certo, pode contaminar outras pessoas e se expandir, levei dali um registro apontando para o futuro.

Nossa caravana seguiu em frente, vimos o tamanho deste continente, passei a ter uma visão mais completa da cena musical, fiz amigos por ai tudo. No ar, a certeza que era preciso organizar a música de novo, a partir das novas possibilidades, mas principalmente das novas cabeças. Oxigenio para uma industria anacronica.

Durante estes anos que se passaram, foram se formando grupos, os foruns de músicos, houve uma tentativa de organizar uma Camara Setorial da Música, onde reencontrei colegas da jornada, como Fabricio Nobre, de Goiania, que a partir de um selo de rock criou festivais e partiu para juntar os festivais numa associação nacional, a Abrafim.

Eles estavam ali nessa caverna em Brasilia, agora ali na minha frente, os mesmos Fabricio e Capilé, agora puxando a fila do Fora do Eixo, um coletivo de coletivos, um nó convergente, um empreendimento que continua juntando forças, por principio.
Nos dois dias da Pré-Conferencia Setorial da Música, vi dois grandes blocos interagindo. O povo dos Foruns de Músicos e o povo dos Fora do Eixo. Havia a necessidade de se extrair 15 representantes de um lote de 100 participantes, de todos os estados e de varios setores: músicos, produtores, entidades, associações, praticamente um recorte da música toda. Os dois blocos principais juntos formavam a maioria e restavam alguns representantes que ainda não haviam tomado partido entre os dois blocos. Nos dois dias, presenciei uma batalha politica no melhor sentido, quando ambos os lados se alinharam na primeira noite, cada um no seu canto, cada grupo fazendo sua contagem de votos e avaliando quantos delegados conseguiria nomear se houvesse uma votação, traçando estratégias, o povo do fora do eixo com um discurso de que seria importante conseguir o consenso de todos, evitar o confronto final e que para isso era preciso conversar e extrair o consenso. Num momento mirabolante, algumas dezenas de foras do eixo decidem ir falar com o povo dos foruns, que eram em maior numero e as duas delegações se fundem num verdadeiro quebrapau verbal, tirando diferenças uma a uma, recolocando frases no contexto, passando a limpo. Ali se iniciou um processo que iria durar dois dias e que terminou muito bem, quando se conseguiu acomodar nos 15 delegados e seus suplentes todas as vertentes, todos os estados, de forma prática e pragmática. Vamos aterrisar neste avião e ainda falta um paragrafo ou dois.

O que faço eu nesta conversa com o governo, no meio do governo? Observo e sou observado, eu acho. Fui convidado a participar, sem direito a voto, ok. Minha carreira é do mercado, tenho uns ventos idealistas que às vezes parecem socialistas, mas não entendo nada disso. Na verdade, para mim foi uma verdadeira aula de Politica, aprendi sobre questões de ordem, incisos, e o jargão. Algumas pessoas ali tinham formação teorica, erudita, sociólogos disfarçados de roqueiros e filósofos sociais com prática de balcão. Cresci e me formei na hierarquia da industria, uns mandando e todos obedecendo, mas passei a vida observando o socialismo musical das bandas de rock contrastando com a aristocracia musical da orquestra sinfonica. E lá estão eles, horizontalmente procurando o consenso, como eu vi os Titãs praticarem, não havia 7 x 1, era todos ou nada. Democracia radical, eu acho.

O governo entra na história por uma causa simples, tudo isto acontece como uma tentativa de se trazer ordem, organização, algum tipo de estrutura a um setor que sofre com as consequencias do já falado anacronismo que virou a industria e o mercado da Música, e acho que isso tambem acontece pelo resto das industrias criativas. Só o governo, começando pelo federal, tem condições de ir buscar algum tipo de atenção para todos se disporem a conversar juntos. Inclua embaixo da mesma lona as majors, os editores, os independentes, os festivais de rock, a universidade, a imprensa especializada, os operarios da música, os criadores, os sindicalistas e os coletivos solidarios, as casas. Diga para eles que terão de conversar sobre direitos de propriedade, pisos minimos, remuneração digital, legislação trabalhista, incentivos fiscais e verbas para projetos. Nem uma palavra sobre as musas. O pior é que não há saida simples nem um partido de idéias. Chamar de setor da economia da música talvez ajude a descrever o que seja este ente embaixo da lona lá em Brasilia. Pois este conjunto de diferentes iguais precisa superar o monólogo paroquial, a conversa conhecida e precisa se embrenhar numa busca de ideario comum, vai precisar virar um Partido da Música, uma ala do Partido da Cultura, se quiser participar deste enorme pais que planta soja, extrai petroleo e constroi aviões. A Música mais rica do mundo aqui mendiga patrocinios porque não existe mercado, só lá fora. Sem subsidios, editais e burocracia não se produzem espetáculos, não se gravam discos, não se faz rock nem mpb. Esta não é a melhor relação entre artistas e seu público e assim o processo se autodevora pelo rabo. Enfim, é preciso ir lá dentro do governo para tentar uma alternativa de recriação, de reconstrução depois da guerra perdida com o mercado de massa sem investimento na diferença, um equivoco histórico. Participo porque não vejo alternativa sem que se mudem leis, sem que se busque recursos fora do mercado como está, mal arrumado. É melhor que se converse e procure alternativas, juntos.

Os meninos e meninas ali sentados em roda no chão não teriam paciencia para me esperar juntar estes estilhaços de pensamentos num discurso, numa fala como eles dizem. Não sou do ramo. Mas sei ver quando uma idéia carrega sua ferramenta de realização. Cada um deles representava um nucleo de produção movido a entusiasmo, avido por encontrar um público que existe e irá se maravilhar, pela capacidade de trocar experiencias, de organizar conhecimento, pela pratica do quem tem põe e quem precisa tira. Um organiza um site comum, outro cria o modelo de documentação, outro explica como registrar um evento e transforma-lo em cinema. Eu vi, com estes olhos miopes, uma reunião com o poder de fogo dos melhores momentos numa empresa multinacional global. Eram mais de meia noite, eles eram mais de trinta e com um batalhão destes se ganha qualquer campeonato.