quinta-feira, 14 de abril de 2011

Depois da morte do CD, um Novo ECAD

Este texto faz parte do livro "O futuro da música depois da morte do CD", publicado em www.ofuturodamusica.com.br e cuja leitura recomendo fortemente, por ser grátis, por ser um apanhado de opiniões muito boas e por fazer bem ao ser consumido, como o brócolis e as sardinhas.

Separei o meu artigo aqui para dar a ele mais um impulso, já que o termo Novo Ecad anda circulando bastante e seu conteudo pode ajudar na discussão do que devemos fazer nós que lidamos com música e cultura, quando temos de lidar com essa coisa digital.

Seus comentarios são o motivo disso aqui, deixe sua marca.



E agora, o que eu faço do meu disco?

A pergunta é antiga.
Desde meados dos anos 90, quando a "informatica" democratizou os meios de produção, os artistas se viram com este dilema. Programas de subsidios á Cultura, ferramental barato – estudios e instrumentos, o espaço minguando nas multinacionais do disco, varios fatores dispararam um processo onde o musico e artista, no papel de produtor fonográfico, chegava sozinho até o disco e o momento de aflição acontecia. Abriam-se as portas do armário, atulhado com um milhar de Cds recem chegados da fábrica e se fazia esta pergunta fatal. O que eu faço do meu disco?

Um ramalhete de canções, um maço de músicas, uma dúzia de opus arrumados em embalagem para viagem, um formato que durou cinco decadas cheias de emoções e parecia a forma natural de ser, o tamanho certo e organico, suficiente para uma etapa na rodovia, para um romance, para a audição saborosa. Toda uma cadeia produtiva se formou e criou limo em volta deste costume tribal global, lançar suas músicas uma vez por ano, num disco com 12 faixas.

Mas subitamente a música se livrou do suporte material, digitalizou-se de uma vez, transcendeu o meio e se transformou na própria mensagem. Os bits imateriais percorrendo os nervos de cobre espalhados pela superficie do planeta explodiram uma supernova, todas as músicas ao mesmo tempo em todos os lugares. Inexoravelmente, vazios de conteudo, os canais de circulação dos discos de música vão secando, lojas fechando todo dia, radios só de noticias, o axé venceu pelo beijo na boca, começa uma nova era – O CD Morreu! Perplexos, músicos e artistas continuam com aquela mesma pergunta. O que eu faço com meu disco?

Talvez o conceito não esteja tão fadado a morrer quanto dizem. Talvez tenha de se metamorfosear, como as borboletas e os sapos ao saírem de sua fase primitiva. Talvez seja mesmo apenas um parágrafo na história da arte, como as gavotas e o o cha cha cha.
Depois do mundo caótico, do caos, confuso, sem nexo nem ordem aparente, virá um mundo quântico, onde todas as hipóteses são possíveis e os paradoxos convivem, prepare seu coração porque pode ser assim, quando houver banda larga em todos os lares.
Imagine um mundo em que o CD morreu, mas sobrevive. Morreu à míngua, as ultimas lojas, as de colecionadores, fecham as portas, não há mais espaço de CD nos supermercados nem nos magazines. Ainda sobrevivem as lojas que vendem Cds pela internet. Uma conferida no Amazon mostra que ainda existem um milhão de títulos no catálogo físico, em 2008. A partir de, digamos, 500 mil títulos, é apenas um nome no catálogo e se você quiser comprar, é preciso dar um tempo para se localizar o produto, pelo menos haverá uma tentativa de localizar. Já no Submarino, CDs ainda são uma sessão importante, na pagina principal, e o destaque reflete o CD como um presente: as românticas caixas de românticos artistas, o Padre campeão de vendas, Madonna e Rolling Stones. Uma busca rápida mostra que o fundo do catálogo do Submarino é mais superficial do que no catálogo da Amazon. Parece que só está a venda o que existe fisicamente num estoque de gravadora, e isto, como saberemos, tende a diminuir.

Vamos dividir o mundo em dois. Deste lado, numa pilha, todos os CDs legitimos, que tenham metadata, um CNPJ, e um endereço para contato. Do outro lado, outra pilha com todos os CDs restantes, que não preencham os três requisitos.

Por partes: metadata - dados além da música - é aquela informação que estava na capa do disco, na embalagem do CD e que se abre quando você clica num CD, numa loja de internet. Metadata contem a arte da capa, a ordem das faixas, seu tempo e nome, autores, o selo, a data de lançamento etc, todas as informações que haviam na capa do disco, e que agora fazem parte de um arquivo que anda junto com as faixas do CD na venda de download. Metadata completo implica que alguem se preocupou em ter os contratos e autorizações com todos os envolvidos: autores, editoras, licenciantes etc, todos devidamente identificados como nas fichas técnicas dos CDs e LPs.

Metadata completa e com CNPJ já é um pouco mais dificil, implica que havia uma empresa associada a este produto, e que esta empresa fornece o CD que pode ser vendido numa loja eletrônica. Sem CNPJ, sem Nota Fiscal, é uma venda informal, portanto, as lojas serias não vendem CDs sem Nota. Por fim, é preciso que esteja alguém num endereço comercial, para atender aos pedidos das lojas, dos discos vendidos pela internet, já que ninguém mais quer ter estoque. Assim, chegamos à situação atual, onde só discos distribuídos formalmente estão à venda nas lojas formais, que por sua vez são cada vez menos pontos de venda de música, mesmo na internet, o que estrangula cada vez mais a cadeia produtiva. Neste trecho do circuito, só vende o que vende, o que é comercial e tem demanda.

Voltando ao nosso mundo dividido em dois, às duas pilhas. A primeira pilha de CDs, os legitimos, tende a diminuir rápidamente, á medida que se acaba o estoque fisico existente, de todos os comerciantes legais, majors ou independentes. O que vende pouco vai virar definitivamente mercado de nicho, onde estarão escondidos os colecionadores e aficionados de generos ou os fâ-clubes. Os donos e vendedores destes discos terão de conhecer literalmente cada comprador, mesmo com todas as facilidades da internet. O cidadão comum, que um dia comprou discos por impulso, na cesta de ofertas do supermercado, segue em frente para gastar seu dinheiro em biscoitos recheados.
A segunda pilha, dos CDs informais, autoproduzidos aumenta, pode-se dizer exponencialmente. Uns feitos em casa, aos borbotões e vamos deixar de fora os criminais, as falsificações. Outros podem ser discos que pagaram direitos aos autores e impostos na fábrica, mas até por serem frutos de incentivos fiscais, do esforço de autogestão de produtores e músicos, das facilidades de produção de conteudo, não carregam em si a habilidade de se comercializar, de se inserir no mercado, não são "produto", neste sentido legitimo em chamar um disco vindo da industria fonográfica de produto. São artesanato, são como as cópias de gravuras, ou esculturas reproduzidas de moldes. Trabalhos artisticos e culturais, contidos num objeto nascido para ser comercializado, num formato identico ao disco da loja, mas que não pode circular, não é mercadoria, não tem Nota Fiscal. Haja armário!

Nem todos estes discos desta segunda pilha, a dos ilegitimos, choram pela a falta de um sistema de distribuição, a falta de interesse do comerciante ou a falta de espaço na midia. Uma boa parte já circula e garanto que é a parte saudavel, a que irá crescer, a partir da iniciativa dos produtores e músicos de irem diretamente ao público, na venda depois do show, direto aos fãs, habito obrigatório daqui pra frente. Pode ser necessario um terremoto fiscal para se alterar o sistema de forma que isto não seja considerado uma ofensa aos cofres públicos. Acredito que desonerar o disco de impostos é o que faz mais sentido, como um dia já se fez para o livro, para se pensar em cuidar do problema do conteudo e não do problema das cópias, irrelevantes em tempos de cornucópia - os bens imateriais que não tem suporte material, a cópia perfeita, a multiplicação dos peixes digitalmente. Toda a força para esta iniciativa, isentar a produção musical de impostos, já é um começo.

Mas o disco não é o formato, a midia, a bolacha. No LP cabem 36 minutos de música, no CD cabem 72 minutos. Apesar de no CD caber muito mais do que 12 músicas do LP, foi preservado o tamanho do ramalhete de músicas, por mera convenção. O disco para os editores tem 14 músicas no máximo. Tanto faz a razão, um disco pode ser um momento na vida do artista ou uma dose habitual para o consumidor, como queiram. Um disco é também apenas o seu conteudo, a informação pura, 12 ou 14 arquivos virtuais numa pasta imaginaria, que ficam juntos no mundo digital como andavam no mundo fisico. Mesmo que se separem para a venda de faixa em faixa nas lojas de download, continuam sendo faixas que nasceram num disco. Continuam sendo lançadas ao mundo de dentro de discos, uma faixa só não tem impacto, não impressiona, não é? Pode ser, mas que o Compacto, o single, já fez barulho, isso fez.

Para voces verem como será a moda quantica, vamos pegar todos os discos daquelas duas pilhas de CDs, - sem mexer nelas! - e criar duas outras pilhas, a dos discos que estão á venda para download na internet e a dos que não estão. Ao se eliminar o estoque físico na venda pelo download, desapareceria um grande complicador, dizia a Nova Economia em 2005. Agora, estes discos autoproduzidos teóricamente poderiam ir ao mercado assim que ficassem prontos no estudio, sem passar pela Era Industrial, sem fábrica, com muito menos investimentos e recursos. Não é exatamente tão simples porque precisam de metadata completa, até para que se consiga vender em sites fora do Brasil, onde a música brasileira é bemvinda e vende bem, sim senhor. E fazer metadata é um, perdão, saco, requer precisão contabil e cartorial juntas, precisa seguir formularios mais complicados que o Imposto de Renda para preencher. E por isso, parece que a necessidade de gerar metadatas não atinge os autoprodutores com a urgencia que deveria atingir, pode ser a tal da Brecha Digital, profunda barreira causada pelos nossos bits em portugues não traduzirem os bits em ingles. E além disso, por causas ignoradas e varias, download não vende no Brasil, quase nada comparado ao Resto do Mundo. E agora temos um problema nacional: muito pouco do catálogo brasileiro está à venda na rede.

O que poderia ser um fator de sobrevivencia do disco não veio trabalhar a nosso favor. Faltou tutano aos independentes para gerar os metadatas completos, faltou orçamento - e vontade - para trazer à venda digital os gigantescos catálogos brasileiros das multinacionais. Pior, mais um arrepio, o catálogo de downloads á venda é o próprio catálogo de CDs á venda, vai minguando junto. O terror ás vezes nos fará reagir. E ainda por cima, os downloads sempre foram muuuito caros no Brasil, por varias razões, inclusive por causa de impostos e um preço minimo estabelecido pelos representantes do autores. Agora talvez não seja mais possivel refazer o percurso de sucesso do iTunes com nosso catálogo digital brasileiro. A teoria da Cauda Longa, do fundo de catálogo gerando tanta receita quanto os sucessos, não se aplica hoje á música brasileira em geral. O digital em breve responde pela metade das vendas, mas não aqui. O Brasil, importante mercado no mundo fisico dos LPs e CDs, não existe no reino digital. E agora será a vez de quem perguntar? Repita comigo: mas o que eu faço do meu disco? Quase ouço uma resposta em coro celestial.


Mudando de marcha e relembrando, entre 1980 e 1995, houve um movimento de consolidação do mercado fonografico, coisa considerada natural e saudável pelos que entendem que o mercado se governa. Recomendo o livro "Os Donos da Voz", da Marcia Tosta, que se deu ao trabalho insano de juntar dados confiaveis sobre esta pré história da arte no Brasil. De algumas dezenas de empresas nacionais que dividiam entre si a responsabilidade de cuidar de centenas de artistas com vida ativa, nos múltiplos gêneros da diversidade brasileira – e italiana, francesa, inglesa e mesmo americana – no inicio dos anos 90 só haviam 5 corporações mundiais cuidando de 80 % de todo o dinheiro de toda a música. Isto era informação corrente na época, fazia parte dos relatórios da IFPI. Hoje, as majors são 4, cuidam de um dinheiro que diminui e se aproxima do valor de 1990, depois de um auge em 2000, e este dinheiro delas continua sendo 80% do mercado, com poucas dezenas de artistas sob contrato. Buldogues tenazes que não largam o osso.

Pouco antes do inicio do processo de centralização do mercado fonográfico – brasileiro e mundial – havia um ecossistema estável que refletia as conquistas da era industrial. Haviam fábricas de LP no Recife, em Porto Alegre alem de SP e Rio. Uma gravadora nacional atingia 3 a 4 mil pontos de venda cadastrados como lojas de disco. Havia inadimplência, mas o sucesso era o melhor cobrador. Quem quisesse vender o sucesso pagava suas contas em dia. Por conta da inflação, vendia-se à vista. Assim, um primeiro disco de um artista podia vender 3 a 5 mil copias no lançamento, um por loja, á vista. Como as revoluções da época se propagavam pela música, desde os anos 50 o cenário era totalmente mutante, não havia lei sobre o que poderia ser sucesso, uma hora seriam os italianos e suas canções modernas, no momento seguinte seriam negros americanos e o soul recém saído da igreja, ou ainda os rapazes e moças prafrentex que anunciavam mais e mais novidades, o samba canção, o twist, o ie ie ie ou a bossa nova. Cançonetas picantes, barítonos suingados, metais em brasa, a novidade fazia a vitrola girar e os discos tocavam e vendiam. Neste cenário risonho, aventureiros fundaram impérios e as rádios obedeciam às paradas de sucesso, pela contagem de telefonemas pedindo bis.

Organico e inocente, mas eficaz.

Antes deste cenário idílico, há uma luta de décadas pelo predomínio do formato, onde dezenas de métodos de gravar e reproduzir a música disputaram o seu lugar no mercado, até que se fixaram aos poucos, o disco de 10 polegadas e 78 rotações, à base de cera de carnaúba, com uma musica de cada lado, entre 1930 e 1950, quando surgiu o plástico vinil, vindo da industria da guerra e que gerou um produto melhor, o LP de 12 polegadas com 6 musicas de cada lado e seu filho menor e mais urgente, o disco compacto de 7 polegadas e 1 musica por lado. Cada música tinha 3 minutos desde sempre, porque era o que cabia nos cilindros de música, da Casa Edison , que circulavam deste 1890 e que foram substituídos pelo *disco* de 78 rotações, também com três minutos por lado. Canções de três minutos levaram 100 anos se fixando como modelo para música empacotada. O compacto com uma música fulgurou no céu como um cometa transportando brilho até o final dos anos 80, onde a humanidade conheceu pelo compacto simples as pérolas “Como Uma Onda No Mar”, “Voce Não Soube Me Amar”, “Sou Boy” e "Inútil", penúltimos hits que o compacto revelou, de uma em uma.

Forma e conteúdo também se confundem neste período do LP, as leis de mercado vigorando de forma linear e simetrica. Vender 12 músicas é melhor do que vender duas numa única venda. Este é o argumento que define o fim do 78rpm - e depois o fim do compacto. Po isso deu-se o surgimento do LP como produto de massa, a meta final da era industrial, a era da copia perfeita. Assim, durante os anos 50, pós guerra, quando se implementava a sociedade de consumo, conseqüência lógica da capacidade industrial multiplicadora instalada nos Estados Unidos, junto com rádios, refrigeradores, aspiradores de pó e liquidificadores, vieram as Victrolas, Electrolas, e os maravilhosos discos Long Playing, tudo moderno, plástico, e perfeitamente iguais.

No primeiro momento dos 50 há um repertorio anos 30 e 40 sendo transcrito da carnaúba em 78 rpm para o vinil em 33 rpm, uma parte gerando muito lucro por estar já gravado, era só mudar de formato e outra parte se refazendo na transcrição, e vieram muitas orquestras sonoras com ingredientes eufóricos latinos, mambo, samba, cantores de vozeirão teatral e topetes puxados no pente, mas muito conformados ao fim do período vitoriano, modestos e solenes, ecos ainda do começo da republica, de antes da guerra.
De algum lugar no espaço, um marciano traz a receita da guitarra elétrica, caída no meio de uma plantação de algodão, e os americanos são invadidos por seres que produzem suingue sem orquestra. Aqui no Brasil, o caos reina, Darius Milhaud, Leopold Stokovsky e Marcel Camus semearam a inquietação e os acordes com sétimas e nonas, em Taubaté a Celi Campelo descobre o jeito certo de estalar os dedos, na Bahia estuda-se violão e instaura-se o fenômeno da primeira singularidade, quando fica suspenso o impossível e o mundo muda violentamente, num surto de criatividade que surfa a base instalada de rádios, vitrolas e poucas TVs . O final dos 50 anuncia os anos 60, onde tudo funcionava em ordem, os artistas tinham chances, as chances eram razoavelmente bem distribuídas e o gosto predominante era o da maioria, que se divertia em descobrir o que queria entre as ofertas. Assim, apesar das revoltas e movimentos sociais, atravessamos décadas bem redondas e formativas do catalogo geral que circula pela rede hoje. Jazz, rock e pop, o brega, a disco dance, boa parte dos clássicos, a bossa nova e a música popular brasileira, tudo isso se consagrou como repertorio depois do 78 e antes do CD. A Era do Vinil, se posso batizar. Como disse o Durval no filme Durval Discos, sobre a polemica CD versus LP: "O som do CD pode ser melhor, mas a música...."

A tecnologia sempre vence. Depois de vender mais músicas, depois de criar o ramalhete de doze canções, o que poderia superar o LP? A resposta certa é: um formato que conseguisse a reprodução da Quinta de Beethoven sem precisar virar o disco. Juro, esta é a causa do sucesso do CD como formato, a razão de marketing são os 72 minutos, está no livro do Akio Morita. O CD, fruto de uma aliança industrial quase impensável entre Philips e Sony, nasce mórbido, disposto a acabar com tudo, a fim da reformulação do universo musical, que precisaria ser refeito no formato digital, uma nova industria. Não era uma evolução natural, como o LP que havia sucedido o 78, ambos analógicos e dividindo o mesmo toca-discos. Na verdade, venceu a tecnologia mais barata, de leitura de pontos e buracos num disco girando rápido. O disco teria de ser pequeno, brilhante e precisava ser guardado numa embalagem sem atrito. Os primeiros CDs literalmente se desmanchavam na mão, saia o metal nos dedos. O objeto decretou o fim da capa de disco como forma de arte complementar à música, com aquela capinha feia de CD, coberta pelo plástico grosso da eufêmica caixinha porta jóia.

Mais mórbido ainda, o conceito digital nasce contendo a copia perfeita, sem o problema das “gerações” causado por cada um dos processos da gravação sonora. A primeira geração ao captar o sinal pelo microfone, a segunda ao copiar o sinal durante a mixagem das pistas do estéreo, a terceira ao cortar o acetato, a quarta ao gerar as fôrmas do vinil, a quinta ao fundir o vinil, a sexta ao rolar da agulha no vinil, gerando novamente ondas sonoras na sétima geração. A cada conversão de formato físico, há uma deterioração da realidade captada. No sistema digital, assim que o sinal sonoro é convertido em eletricidade, já é transformado em pulsos digitais binarios, zeros e uns, que se transportam quantas vezes for preciso, mudam de estado e se recuperam, saindo perfeitamente iguais no final do processo, digamos assim. Mais ainda, o digital nasce a partir da procura da copia perfeita e da transmissão perfeita, com a menor energia e sem atrito, sem se perder nada em todo o processo de reprodução e transmissão, fruto de altas especulações da Teoria da Informação, no ambiente da Guerra Fria, que também trouxe a rede que não cai nunca, a Internet. Voce consegue imaginar um universo onde alguma coisa possa ser criada, copiada, transportada, transformada sem custo, quase sem gasto de energia, sempre, a cornucópia farta e inesgotável? Coisa de doido. Posso ver o cientista pirado esfregando as mãozinhas, conseguimos, conseguimos.

Imagino que os Administradores Fonográficos consideraram isto uma vantagem e não uma ameaça. Afinal, num mundo analógico, só Eles tinham as ferramentas para lidar com o novo universo digital. Gravar, reproduzir, manipular sons digitais só em máquinas bem caras, Sony ou Philips, durante um bom tempo foi um monopólio industrial muito bem gerido. Alias, cada CD fabricado paga royalties até hoje. Pois Os Caras resolveram que iríamos trocar de formato novamente, como havia sido feito da carnaúba para o vinil, simplesmente saindo do LP e transportando o catálogo para o digital CompactDisk . Pequena confusão natural, na verdade eles estavam transportando o catálogo do reino analógico para o reino digital, uma pedra filosofal transformando lixo em ouro, ou vice versa. O CD, hoje sabemos o que é isso, era apenas a mídia e a mídia, ora, a mídia muda de shape a cada 15 minutos!

Em 1980, já um produtor musical com algum sucesso e boa remuneração, resolvi investir no digital por passatempo, por ter alguma experiência prática com um modestissimo computador pessoal Sinclair, onde fazia calculo de custos semanais na época da inflação de dois dígitos por semana, primeiro investindo num Apple IIe, de saudosa memória e em seguida num portentoso IBM PC AT, com um monitor colorido, que custou um carro quase do ano. Enquanto isso, no estúdio, o reino digital se aproximava da música, sedutor. Primeiro, com o sampler, que tirava uma foto de um pequeno som, uma amostra, e nos deixava brincar tocando como notas num teclado, ou um conjunto de pequenos sons que reproduziam uma bateria e que podíamos programar para tocarem em sequencia, mecanicamente, perfeitamente no tempo, incansavelmente, sem parar até hoje.
Logo em seguida, os amostradores digitais já conseguiam reproduzir coisas maiores, sons de piano, sons de naipes de cordas, aquele grito do James Brown. Até que um dia apareceu um gravador de fita digital, um trambolho que gravava o sinal digital de audio, músicas inteiras em fitas de vídeo, o som era limpo, transparente, mas montar o disco era uma aventura numa ilha de vídeo, olhando riscos na tela. As coisas foram indo digitalmente até o dia que numa reunião houve a sugestão de lançar um disco primeiro no formato CD, o "Benjor" das mãos, na WEA. O dia em que o slogan mudou para "À venda em LP, K7 e CD". Nas lojas, o que era uma gaveta de CDs virou uma sessão inteira e depois uma loja especializada em CDs. Como toda novidade, aceitamos e pagamos bem, comprando tudo de novo, até o ponto sem volta, quando a maioria se livrou dos seus LPs, quinze anos fazem.

Nesta altura, o reino digital, como um prium,a proteína da vacalouca, se reproduzia matando toda resistência, pela sua própria eficiência de desenho. Durante a década 85 a 95 o digital invade o sistema telefônico, a industria, o comercio, o sistema financeiro, a Nasa e o DoD. Cai o muro de Berlim e chove dinheiro para implantar a Internet para fora dos confins da Segurança Nacional americana, as universidades se transformam em asfaltadores da autoestrada da informação, filha mais bela do reino digital, a WWW, a rede do mundo todo.

Em 1995 consegui uma senha para ter acesso pela USP, usando uma colcha de retalhos de um Mosaic e alguns arquivos de configuração. Até então, não era incomum conectar-se a um BBS americano para dialogar com colegas sobre as mazelas de masterizar um CD, verdadeira bruxaria. A partir da Internet, Usenet e os grupos e listas do inicio da rede, a informação sobre o digital se espalhou como epidemia, cada contato multiplicava a infecção, programar, virar a noite fazendo funcionar um programinha qualquer, algoritmos se formando e se espalhando abertamente, publicamente, um dominio público. Palavras novas foram surgindo e se incorporando ao dia a dia, email, www, mp3, napster, veio a explosão global, milhões de usuários, bilhões de arquivos, trilhões de copias – perfeitas – circulando, sem "gastar nada".
A industria fonografica, em algum lugar dos parágrafos anteriores, ao se consolidar em grandes corporações, perdeu o "olho do dono". As gravadoras, em sua totalidade, como os bons restaurantes, dependiam do gosto apurado do chefe, que definia estilos, consagrava artistas em que acreditava, investia ás vezes ao longo de décadas, criando obras seminais e fundadoras de nossa cultura, sem necessariamente vincular o sucesso ao numero de vendas. Num equilibrio saudavel, bons vendedores sustentavam bons artistas. Ao se consolidarem e transferirem o critério de sucesso para o valor das ações na bolsa, para o dividendo a ser pago aos acionistas, venceu a lógica desviada do mercado e suas leis de oferta e demanda, valida agora também para o conteudo, vigorando apenas um raciocinio contabil de custo beneficio imediato, a ser avaliado no fim do trimestre. André Midani mostrou isto bem em sua antológica entrevista á Folha, onde explicou o jabá, vitamina do lucro rápido.

O discurso pós globalização e centralização da industria fonográfica foi reduzido a alguns aforismos profissionais que podem ajudar a entender as posturas da industria e sua convivencia com a internet. Vender muito de poucos artistas ( é melhor que vender pouco de muitos artistas). Vender cada vez mais dos mesmos artistas ( portanto, vende quem vende). Vender para menos compradores que compram cada vez mais ( chega de vender de loja em loja, o negócio é vender para grandes magazines, supermercados e rede de lojas, custa muito menos e o risco de inadimplencia é menor). Quando isto estava implementado de norte a sul leste e oeste, a indústria teve um crescimento financeiro gigante, o disco quadruplo de platina, alguns artistas alcançaram visibilidade e mercado global e em meados dos anos 90 já se enxergava o erro da falta de desenvolvimento de novos artistas nas majors, e o fim da distribuição capilar, que entregava discos competentemente quase que em toda esquina. Os independentes apareceram e cresceram, para abrigar as tendencias e artistas excluidos do processo de otimização das vendas. O pirata organizado tambem apareceu e cresceu, suprindo primeiro o K7, aprendendo sobre logistica e depois vendendo Cds na esquina, preenchendo espaços não defendidos, posições abandonadas.

Ao se defrontarem com a internet do mp3, em 1996, nas gravadoras não havia ninguem de plantão para dialogar com a novidade, apenas advogados tentando erguer a proteção, a defesa contra o "inimigo", que queria música, muita música, toda a música do mundo, agora ao alcance, disponivel em listas organizadas por generos minuciosamente como no Audiogalaxy, comentadas, recomendadas pessoalmente, com mecanismos de parada de sucessos transparentes e verazes, o numero de pessoas que estavam disponibilizando as músicas. Mas fechou-se o Napster como opção juridico financeira, sem perguntar para o operacional. O raciocinio de um produtor fonografico seria seguir uma lógica anterior de muito sucesso: AM, FM e MP3, tudo a mesma coisa, são meios de divulgação. Mas a melhor defesa escolhida foi processar e dizer que era crime disponibilizar suas músicas para outros ouvirem. A partir daí, a derrocada. Perderam todos, os autores, os músicos, os produtores e os donos da industria, toda a cadeia produtiva, debilitada pela centralização dos anos 90, caem todos, sucumbem ao avanço do reino digital, a lógica da cópia e da transmissão perfeita, a economia da fartura, a cornucópia.
Deu nisto.Os maiores armários já inventados, cabendo quase toda a música gravada numa caixa de sapatos hoje, amanhã num cantinho que fala com o espaço, meu celular, uma gota na nuvem.

A música vai bem, obrigado. Na internet, livre e solta, e fora dela. Os generos se fortalecem, novos interpretes, orquestras, produtores, espetáculos. Veja o Auditório Ibirapuera, exemplo de projeto de sucesso, de bom investimento em música, e que gera produtos, DVDs, CDs, programas de TV, impulsiona carreiras, chama a atenção do público para os músicos e para a música de forma generosa e com consistente retorno na imprensa, na imagem pública da TIM, a mantenedora. Os artistas, com aquela pergunta entalada na garganta, olham para o público, com a esperança de vender seu CD no final do show. O espetáculo renasce, é o momento raro, escasso, um artista tem talvez 100 espetáculos por ano, é um instante crucial a favor do artista. Sim, funciona. No Auditório Ibirapuera, pode se esperar vender o CD para um tanto do público, aficionado e extasiado com um espetáculo impecável. Podem ser 250 discos num fim de semana, se esta moda se consolida, nas 40 semanas uteis do ano musical podem ser 10 mil discos por ano diretamente vendidos pelo artista, o disco souvenir. Neste cenario de uma nova cultura da música sem vinculos com a indústria fonográfica, o CD é um artesanato, e , mesmo querendo pagar os autores, será preciso reconstruir um novo ECAD que pense em como ir buscar este dinheiro, que por ser mínimo, pode desaparecer do radar.

Na verdade, um Novo ECAD deveria ir buscar uma solução mais ambiciosa, mais ampla e abrangente, repensar o mecanismo de cobranças, ir buscar o valor devido á música em todas as transações que a música acrescenta valor, por menor que seja. Repensar a partir da falencia do modelo da venda da cópia e do privilégio da difusão, estes sim, cadaveres insepultos. Várias teses circulam na rede, por exemplo recolher um dinheiro de todo mundo, telecoms e consumidores, um pouquinho por ano, uma unica taxa de música, paga na conta do celular, alguns reais para cada um dos centenas de milhões de celulares já dá um numero próximo do que o ECAD arrecada para os autores hoje. Se o ECAD distribuisse tambem para gravadoras, músicos e artistas, com mais alguns reais por ano já teriamos um numero parecido com o faturamento da industria fonografica toda. Então, pelo preço de um CD por ano, por exemplo, poderiamos ter toda a música que conseguissemos consumir, remunerando todo mundo. Será necessaria uma discussão nacional, com todos os envolvidos, uma Assembléia da Música, para se refazer com urgencia um modelo que levou décadas sendo tecido e que se desfaz como modelo financeiro viavel, por pensar apenas na venda da cópia e no privilégio de transmissão como unicas referencias de valor na música. Um Novo ECAD que consiga interpretar as novas paradas de sucesso, medir o interesse do público, a quantidade de vezes que a música circula pela rede, muito maior que via RTV ou cópias físicas e a partir dai estabelecer uma distribuição de direitos que contemple mais rigorosamente a realidade.
Os artistas e seu público, estes continuarão se procurando e se achando, por afinidade, por interesse. Com ou sem intermediarios, que são importantes e realizam os sonhos.

O disco poderá ser substituido por outros ramalhetes ou maços de canções. A obra inteira do artista poderá andar junta de uma vez só, como nas caixas de Cd - ou nos arquivos torrente. Mais ainda, todos os formatos poderão conviver, o CD, o LP de vinil, o mp3, arquivos minusculos e os sem perdas, e ainda o 96Khz, formato esotérico, a máxima fidelidade, som em Alta Definição, que já existe nos estúdios e que poderá florescer no DVD blue ray e na banda larga. Em versões para tocar no celular, no som do carro, em cartões de muitos gigas, em formatos que vão aparecer. Tudo junto, o gratis virtual e o absurdamente caro, como LPs de 200 gramas a 100 dolares. Muita coisa de graça, para divulgar. Na verdade o impulso tem de ser, como sempre foi, o máximo possivel de execuções ou audições gratis, é a forma de acostumar as pessoas com o repertorio novo, e monetizar o que tem valor, o privilégio, o único, o raro. O dinheiro está onde sempre esteve, inclusive no bolso dos espectadores.

Um dia, os artistas e o público irão se acostumar com outra lógica, onde a carreira de um artista não será mais a sua carreira fonografica, haverão outros marcos no percurso. O Wikipedia vai achar outro modo de organizar os fatos na vida de um artista de sucesso sem ser pela discografia. Talvez o mundo pop tenha pressa em ser clássico e de dominio público. E a pergunta certa será feita: o que será da música que eu faço?
Pena Schmidt
Auditório Ibirapuera, junho de 2008.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Uma economia de individuos com força de indústria.

Parece que preciso de um convite se não este blog não se movimenta.

Agora foi KK Mamoni, excelente profissional, fechando os ultimos pontos da Feira Música Brasil 2009 e me encomendando um pequeno texto para o catálogo da Feira, quase pronto.
Saiu no tranco, na noite da véspera do prazo. Como é 100% oficial e formal, tento manter meu idioma próximo do portugues, não invento muita moda, espero que só os colegas vão ler, não é? Esta engomadinho, mas o final ficou reverberando aqui dentro, fazendo um acorde com o que anda sendo escrito nos ultimos dias em blogs e grupos onde se discutem as coisas da música. Vejam se me entendem:


" Para nós que vivemos de Música, todos os que participamos da cadeia produtiva, ir a uma Feira de Música é como ir a um casamento daqueles bons, uma reunião de família onde revemos até os primos em terceiro grau.

Afinal, a natureza do nosso modo de vida é meio nômade, somos itinerantes. A Música está em constante movimento, sempre na estrada ou então em mutação do ambiente de trabalho, uma hora compondo, ensaiando, outra hora no teatro, depois na televisão, na oficina de conserto, na sala de concertos ou passando horas em frente a um computador, preparando mais um projeto, possivelmente no saguão de um aeroporto.

Assim nos encontramos por ai, geralmente muito ocupados e de raspão, trabalhamos alguma horas juntos e nos separamos. Às vezes são anos sem voltar a um mesmo palco, acompanhamos de longe os progressos na carreira, os sucessos e as mancadas, as bandas que se desfazem, as duplas que voltam, discos e repertórios novos, um premio, um instrumento diferente, essas coisas são os assuntos de nossas conversas em transito.

Tem sido sempre este o melhor motivo para voltar às Feiras de Música, fazer delas o motor social que une todos: a classe artística e a classe produtora, os técnicos, os executivos, os que querem ser artistas e os que foram artistas e agora são gestores, enfim é um momento de polinização e cruza. Rever os velhos camaradas de todas as instancias desta vida profissional, conhecer e se fazer conhecido, apertar as mãos de rivais, conviver um pouco como clã, como tribo, como família. Num mundo em que competimos por tudo, aqui na Feira de Música dividimos calorosos a mesa apertada ou um convite para a festa na sequencia. É na Feira de Música, em todas elas, que percebemos que pertencemos. Temos um nexo.

Claro que os trabalhos são produtivos e todos os momentos possíveis são eficientemente administrados, até os os intervalos do café são instantes valorizados, servem para passar a limpo a agenda de contatos e marcar reuniões, levantar novas possibilidades na carreira. Para quem lida com Música, conversa é trabalho, diversão e arte. Na FMB2009, para mim e para muitos, a descoberta artística foi notável, pelo ímpeto da feira em apresentar um elenco enorme, desafiado a mostrar seu talento para um grande público que ia conhecendo os artistas um depois do outro. Para os músicos e artistas que passaram pelo palcão no Marco Zero, funcionou como uma certificação, uma prova de madureza, de qualidade da entrega, mostrando altos valores de produção.

Nos stands, base e ponto de encontro, idéias circulam, os discos de vinil eram novidade, instituições se apresentam. A Música tecendo sua teia com outros parceiros, apertando os nós, garantindo a qualidade e propagando o ideal. Desta forma, aproximando e nos mantendo juntos e misturados, é que se fortalece uma economia criada por indivíduos e que tem força de industria."

Pena Schmidt
Superintendente
Auditório Ibirapuera, São Paulo.

sábado, 13 de março de 2010

Defendendo a Música com unhas e dentes.

..."E agora queria passar a palavra para o Pena e para o Daniel. " Trinta pessoas olhando em minha direção. Quase uma hora da manhã, numa caverna urbana em Brasilia, uma passagem entre dois prédios, uma assembléia reunida sentada no chão olha para mim e espera. Em alguns segundos retornei da viagem que estava tendo, olhando aqueles rapazes e moças se articulando, distribuindo tarefas, relatando cada um sua parte na experiencia. Emocionados e decididos, uma cena que pode ter se repetido em muitos momentos da História. Minha viagem naquele momento era descobrir o que seria mais parecido com aquele momento ali em Brasilia. Jovens reunidos na madrugada, com um plano de ação se desenrolando e se encaixando em outros planos que tambem se desenrolavam ali ao lado. Que grande poder tem estas vidas se preparando para uma jornada comum. Eles podem chegar até a Lua! Marte! A conquista do universo, tudo é viavel quando se tem a vontade e a vida pela frente. E eu tinha que dizer alguma coisa ali, naquele momento. Amarelei e pedi para sair. - "Eu escrevo no meu blog, leiam lá". Daniel Zen, um jovem como eles, Secretario de Estado da Cultura do Acre, tomou a palavra, eloquente e elegante, mostrou sua satisfação com o esforço de todos e disse algo importante. Que mesmo sendo uma assembleia discutindo a construção da Música, na verdade todos eles estavam ali se preparando para outros papeis, tão importantes, que teriam de desempenhar como cidadãos. Fui dormir tranquilo porque o que precisava ser dito havia sido dito.

Por isso, e por que fui cobrado de minha promessa, vou ter de caprichar aqui para as testemunhas oculares deste rascunho ao vivo.

Brasilia não perdoa os amadores, e só com muita concentração é possivel escapar do calor, do ar seco, do concreto, da falta de caminhos para pedestres. Estavamos trabalhando num parque de tendas, próximos do chão vermelho, com a chuva batendo forte na lona e interrompendo. Uma centena de pessoas representando os estados todos e quase todos os setores da música, em debate permanente e sem trégua. Varias histórias retrançadas em alguns anos de associativismo, militancia em sindicatos e cooperativas e essa coisa nova, os coletivos, meio trabalho solidario, meio clube, meio célula revolucionaria. Todos ali, por varias razões, estavam praticando politica representativa, democracia participativa. Os trabalhos se desenrolariam em tres tarefas: uma eleição de delegados para a Conferencia Nacional de Cultura, uma discussão e escolha de 5 diretrizes da Música para serem incorporadas á pauta da CNC e uma eleição de um Colegiado de 15 delegados e seus suplentes, que irá participar nos trabalhos do Conselho Nacional de Politica Cultural. Era uma Pré-Conferencia Setorial da Música. Odeio a falta de poesia dos títulos, mas é trabalho necessario, cidadão, e o momento me fazia acreditar na veracidade das intenções. O povo estava ali para dar um jeito nas coisas da Música como modo de vida.

Pode levar um tempo para se recuperar de uma interrupção, fui ali. Dias depois retomo esta conversa indo na mesma direção, num avião de volta a Brasilia. Corta para algum dia em 2004. Junto com Natale estava viajando por todas as capitais do Brasil, um titulo raro, que requer muitas horas de voo e muitas passagens por Brasilia, conexão obrigatória. Nessa época faziamos uma tourne do projeto Rumos, mapeando a música, indo ao encontro dos músicos e produtores. Natale já tinha um traquejo, estava voltando aos lugares e já tinha desenvolvido uma rede de contatos. Eu era presidente da ABMI e meu papel era fazer uma palestra sobre o movimento associativo. A ABMI nasceu dentro do Itaucultural, num encontro de produtores de discos do Brasil todo, em 2000. Fazia minha palestra, basicamente explicando que vinha uma nova ordem fonografica pela frente e seria necessario se reorganizar a partir de coletivos, associacões de pequenos produtores, que só assim poderiam sobreviver ao caos prenunciado pelo desmanche da industria. Só se organizando em coletivos seria possivel negociar com o Municipio, o Estado e a União e ir buscar melhores condições para a Música Brasileira. Acenava com as facilidades incipientes da internet, as possibilidades da telefonia celular chegando a todos os brasileiros e com o futuro digital, mais simples e barato que o passado analógico da indústria fonografica.

Fazia minha palestra, participava da mesa e dos debates durante o dia todo. Saiamos para comer com o pessoal local, fazendo amigos. Na maioria dos lugares encontravamos um ambiente de insatisfação e impotencia, pela falta de informações ou de recursos. O máximo que o governo se aproximava da Música era em editais de patrocinios a gravações de discos, depois disso era problema seu. O que havia de organização eram alguns selos, pequenas empresas fonograficas fora do Rio e SP, alguns com decadas, alguns movimentos de resistencia, algumas produtoras de bandas de rock, alguns selos de música instrumental e era isso. Quase nada de coletivos, sindicatos, associações.

Em Cuiabá, fizemos nossa palestra, um nivel de participação surpreendente, mais atento. Vamos sair e visitar um lugar recomendado, o Espaço Cubo, uma produtora comunitaria. Uma comitiva, pessoas do pedaço e nós. Uma casa num bairro classe média, sem sinais por fora. Na sala, logo na entrada, estantes com livros, uma parede cheia deles. Uma biblioteca para empréstimos. Mudei a marcha mental, admirei aquela biblioteca e pensei em todas as estantes de livro que fizeram a minha juventude enxergar o mundo lá fora. Este lugar já se colocava em outro patamar, já não me parecia mais uma produtora de bandas de rock, havia ali uma proposta de dividir com quem chega, partilhar uma estante de livros, que coisa mais simbólica. Dai para a frente, a visita foi se tornando um espanto atrás de outro. Um nucleo de produção, um núcleo de artes, um nucleo de informatica, tudo muito simples, mal acomodado mesmo, mas operacional. Aqui as bandas se produzem, preparam seus espetáculos, fazemos festivais, já temos conexões e apoio da prefeitura, estamos melhorando nossa sala de ensaio, e temos nossa moeda, o CuboCard, que circula entre as bandas e o comercio local. Em algum momento desta fala de apresentação que o dirigente Pablo Capilé fazia, me perdi dos detalhes e fiquei saboreando aquele modelo especial de empreendimento. Uma proposta utopica, de construção de realidade alternativa, movida a café e dias de 25 horas, jovens com uma erudição surpreendente, economistas na jogada, pés firmes no chão. Pode dar certo, pode contaminar outras pessoas e se expandir, levei dali um registro apontando para o futuro.

Nossa caravana seguiu em frente, vimos o tamanho deste continente, passei a ter uma visão mais completa da cena musical, fiz amigos por ai tudo. No ar, a certeza que era preciso organizar a música de novo, a partir das novas possibilidades, mas principalmente das novas cabeças. Oxigenio para uma industria anacronica.

Durante estes anos que se passaram, foram se formando grupos, os foruns de músicos, houve uma tentativa de organizar uma Camara Setorial da Música, onde reencontrei colegas da jornada, como Fabricio Nobre, de Goiania, que a partir de um selo de rock criou festivais e partiu para juntar os festivais numa associação nacional, a Abrafim.

Eles estavam ali nessa caverna em Brasilia, agora ali na minha frente, os mesmos Fabricio e Capilé, agora puxando a fila do Fora do Eixo, um coletivo de coletivos, um nó convergente, um empreendimento que continua juntando forças, por principio.
Nos dois dias da Pré-Conferencia Setorial da Música, vi dois grandes blocos interagindo. O povo dos Foruns de Músicos e o povo dos Fora do Eixo. Havia a necessidade de se extrair 15 representantes de um lote de 100 participantes, de todos os estados e de varios setores: músicos, produtores, entidades, associações, praticamente um recorte da música toda. Os dois blocos principais juntos formavam a maioria e restavam alguns representantes que ainda não haviam tomado partido entre os dois blocos. Nos dois dias, presenciei uma batalha politica no melhor sentido, quando ambos os lados se alinharam na primeira noite, cada um no seu canto, cada grupo fazendo sua contagem de votos e avaliando quantos delegados conseguiria nomear se houvesse uma votação, traçando estratégias, o povo do fora do eixo com um discurso de que seria importante conseguir o consenso de todos, evitar o confronto final e que para isso era preciso conversar e extrair o consenso. Num momento mirabolante, algumas dezenas de foras do eixo decidem ir falar com o povo dos foruns, que eram em maior numero e as duas delegações se fundem num verdadeiro quebrapau verbal, tirando diferenças uma a uma, recolocando frases no contexto, passando a limpo. Ali se iniciou um processo que iria durar dois dias e que terminou muito bem, quando se conseguiu acomodar nos 15 delegados e seus suplentes todas as vertentes, todos os estados, de forma prática e pragmática. Vamos aterrisar neste avião e ainda falta um paragrafo ou dois.

O que faço eu nesta conversa com o governo, no meio do governo? Observo e sou observado, eu acho. Fui convidado a participar, sem direito a voto, ok. Minha carreira é do mercado, tenho uns ventos idealistas que às vezes parecem socialistas, mas não entendo nada disso. Na verdade, para mim foi uma verdadeira aula de Politica, aprendi sobre questões de ordem, incisos, e o jargão. Algumas pessoas ali tinham formação teorica, erudita, sociólogos disfarçados de roqueiros e filósofos sociais com prática de balcão. Cresci e me formei na hierarquia da industria, uns mandando e todos obedecendo, mas passei a vida observando o socialismo musical das bandas de rock contrastando com a aristocracia musical da orquestra sinfonica. E lá estão eles, horizontalmente procurando o consenso, como eu vi os Titãs praticarem, não havia 7 x 1, era todos ou nada. Democracia radical, eu acho.

O governo entra na história por uma causa simples, tudo isto acontece como uma tentativa de se trazer ordem, organização, algum tipo de estrutura a um setor que sofre com as consequencias do já falado anacronismo que virou a industria e o mercado da Música, e acho que isso tambem acontece pelo resto das industrias criativas. Só o governo, começando pelo federal, tem condições de ir buscar algum tipo de atenção para todos se disporem a conversar juntos. Inclua embaixo da mesma lona as majors, os editores, os independentes, os festivais de rock, a universidade, a imprensa especializada, os operarios da música, os criadores, os sindicalistas e os coletivos solidarios, as casas. Diga para eles que terão de conversar sobre direitos de propriedade, pisos minimos, remuneração digital, legislação trabalhista, incentivos fiscais e verbas para projetos. Nem uma palavra sobre as musas. O pior é que não há saida simples nem um partido de idéias. Chamar de setor da economia da música talvez ajude a descrever o que seja este ente embaixo da lona lá em Brasilia. Pois este conjunto de diferentes iguais precisa superar o monólogo paroquial, a conversa conhecida e precisa se embrenhar numa busca de ideario comum, vai precisar virar um Partido da Música, uma ala do Partido da Cultura, se quiser participar deste enorme pais que planta soja, extrai petroleo e constroi aviões. A Música mais rica do mundo aqui mendiga patrocinios porque não existe mercado, só lá fora. Sem subsidios, editais e burocracia não se produzem espetáculos, não se gravam discos, não se faz rock nem mpb. Esta não é a melhor relação entre artistas e seu público e assim o processo se autodevora pelo rabo. Enfim, é preciso ir lá dentro do governo para tentar uma alternativa de recriação, de reconstrução depois da guerra perdida com o mercado de massa sem investimento na diferença, um equivoco histórico. Participo porque não vejo alternativa sem que se mudem leis, sem que se busque recursos fora do mercado como está, mal arrumado. É melhor que se converse e procure alternativas, juntos.

Os meninos e meninas ali sentados em roda no chão não teriam paciencia para me esperar juntar estes estilhaços de pensamentos num discurso, numa fala como eles dizem. Não sou do ramo. Mas sei ver quando uma idéia carrega sua ferramenta de realização. Cada um deles representava um nucleo de produção movido a entusiasmo, avido por encontrar um público que existe e irá se maravilhar, pela capacidade de trocar experiencias, de organizar conhecimento, pela pratica do quem tem põe e quem precisa tira. Um organiza um site comum, outro cria o modelo de documentação, outro explica como registrar um evento e transforma-lo em cinema. Eu vi, com estes olhos miopes, uma reunião com o poder de fogo dos melhores momentos numa empresa multinacional global. Eram mais de meia noite, eles eram mais de trinta e com um batalhão destes se ganha qualquer campeonato.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Música ainda é profissão? V.1.1

O valor que essa gente bronzeada tem.


Escrito para o "Guia da Produção Cultural 2010" do Edson Natale a Cristiane Olivieri


Se eu estivesse começando a carreira hoje, prestaria atenção em algumas coisas que podem fazer a diferença entre profissão ou passatempo. Como todo conselho dos mais velhos, pode ser interpretado apenas como - preste atenção!

1) Música como um serviço, como a gastronomia, a fabricação de vinhos ou roupas. As pessoas que consomem este serviço são chamadas de "público", em vez de "clientes". Esta é uma relação simples e direta, artista e seu público. O público, se gosta, entra na cadeia produtiva e acha uma forma de pagar para consumir, para fruir e se deliciar com sua música, pagando por ingressos, comprando discos, CDs, LPs, downloads ou músicas no celular, tanto faz. Não fará mal nenhum ao artista que inicia sua carreira lembrar-se disto e assim buscar seu público, trata-lo com carinho, e aos poucos, descobrir a maneira como seu público irá recompensa-lo financeiramente. O conceito principal é que haverá uma troca: sua arte, seu trabalho, pelo seu sustento e mais um pouco. Quem paga a conta é o público.

2) Como fazer negócio? Depois de 100 anos de um certo modelo unico que servia para todo mundo, consagrado pelo nome "gravadora", quando este modelo fracassa pelo desgaste tecnológico, pela mudança de costumes e habitos, enfim se desmancha de velho e gasto, é normal e compreensivel que os artistas da música sintam falta de uma estrutura comum a todos, algo que simplificava a venda, na verdade tirava de perto do músico o "caixa", o trabalho comercial. Pior, neste momento, 2010, ninguem sabe como fazer funcionar de outra forma o negócio, essa troca entre público e artista. Cada caso é um caso, não há método nem vale a experiencia. Não é uma questão de dinheiro, de empresas que sabem o que fazer, de caçadores de talento, curadores ou padrinhos. O que funciona para um pode funcionar apenas para ele. Portanto, faça o que o seu nariz manda voce fazer. Seu negócio, entendeu? Uns vão procurar distancia do trabalho comercial e vão delegar para gravadoras, vendedores, empresarios, agentes, produtores. Ok, não é má idéia, é preciso tempo para ensaiar e compor, mas não perca o controle de qualidade, será o seu público, não deles. Certas pessoas tem este talento comercial e gostam da música e do seu ambiente, serão bons vendedores, junte-se a eles, mas é preciso manter pulso firme para que os conceitos comerciais não determinem o rumo artistico. Mostre quem manda, a arte; mesmo que se percam algumas oportunidades, virão outras. Se em seu caso voce quer apenas tocar e não quer se preocupar com esse controle, essa responsabilidade, muito bem, sempre se pode conseguir emprego numa banda, numa orquestra e seguir o lider. Boa sorte e estude também para algum concurso público. Para seguir uma carreira na música é preciso lidar com estas responsabilidades e inseguranças, acreditar que irá conseguir criar um público a partir de sua arte, de sua maneira de ver o mundo e de usar a música para se expressar, inclusive até com letra, especialmente pela letra. Crie seu negócio a partir do que voce enxerga na sua frente, seu público.

3) Um dos enigmas que voce terá de resolver, é o comportamento da tele-horda, essa multidão incontavel e invisivel que se conecta, diz algumas palavras, copia o que quer e some, sem deixar rastros ou contribuição. São o seu público, de forma sutil e esgarçada, mas suficiente para conversarem entre si e gerar reputação de forma melhor que a grande e velha midia. Um boca a boca se espalha e cria pautas, cenas, tendencias. A tele-horda, autonoma e sem cabeça é poderosa na hora de gerar público para seu espetáculo, a melhor ferramenta de convencimento. Esta é a maravilha, a tele-presença, estar com eles, participar das conversações todas, no twitter, no orkut, onde eles estiverem. Alimente-os com músicas, remixes, fotos, textos, narrativas de viagem, opiniões, o tempo todo. Trate-os como individuos que gostam do que voce faz, agradeça a gentileza. Eles se materializarão na sua frente, com uma nota de 50 na mão, querendo ter um pedaço seu de lembrança.

4) Isto é o começo e se voce fosse um Joào Gilberto ou um Roberto Carlos começando hoje, poderia contar com a sorte de ter um talento extraordinario. Mas sabemos que os talentos extraordinarios são obvios só depois, muito depois. Portanto, agora rale! Quer saber o caminho para chegar ao Auditório Ibirapuera? Ensaie, ensaie e ensaie. Esta resposta não é minha. Há uma constatação de que após 10.000 horas de prática não se percebe diferença entre o genio que nasce com o dom e o teimoso que persistiu, ambos demonstram o mesmo talento superior adquirido com as horas de estudo, repetição e atenção. Rale sem pensar em parar.

5) O que fazer com os direitos autorais nesse mundo em transformação? Boa pergunta e voce terá tambem de achar esta resposta voce mesmo. Dizem que artistas sempre viveram do seu trabalho e não de sua obra. Outros vivem de sua obra, os que ganham para representa-lo. Na prática o direito autoral está na mão de terceiros. Mas não deixe isto o afastar de nenhuma possibilidade de conseguir algum dinheiro pelo ECAD ou por alguem que o represente na hora de negociar trilha de filme ou de comercial, musica pelo telefone ou qualquer outra modalidade de uso da obra que venha a ser inventada, onde se vende um pacote grande, onde entra um dinheiro. O direito autoral é interessante quando consegue transaçoes maiores, significativas. Mas lembre-se de seu público e sua relação de amor intenso e desinteressado, não queira cobrar de seu público pelo desejo em ouvi-lo, não deixe que alguem pense em punir seu público, chama-los de piratas, essas coisas sem noção, jamais. Junte-se a pessoas capazes de entender isto na hora de escolher quem vai representa-lo. Cobrar de quem tem interesse comercial. Talvez seja necessario estudar um pouco sobre isso, para ter uma opinião própria, em breve será necessario mudar as leis que regem o Direito Autoral para adapta-lo a esta nova realidade e voce será chamado a dizer qual a sua posição a respeito. Por via das dúvidas, não perca o controle de sua obra, garanta que voce pode despedir seu representante para cobrança dos direitos autorais quando quiser.

6) Andar em bandos é saudavel e construtivo. Fazer juntos, de forma colaborativa, para conseguir vantagens para todos. Aprenda a fazer isto com a menor estrutura possivel, sem engessar, criar instituições, essas coisas. Não é mais necessario ter sede própria ou fazer assembleia para conseguir unir as pessoas com as mesmas idéias, definir uma agenda de trabalho e mandar ver, trazer cada um sua parte no mutirão. Os coletivos realizam de forma natural e simples, com a ajuda destas coisas que chegaram agora, os lugares compartilhados na nuvem, os meios de comunicação gratuitos, as redes sociais. A música, especialmente, se beneficia muito, porque se constroi e gera riquezas e empregos a partir apenas de pessoas, de criatividade, de conteudo, a partir de conversas, encontros, interação. Tudo isso é o que rola e circula pela rede e nas ferramentas, aproveitem bem.

7) Seja local para ser global, não é isso? Busque todos os recursos que podem existir no seu pedaço. Aproveite que ninguem mais sabe o que fazer com as radios e invada! Vá frequentar as radios e insista para que toquem sua música. Use as redes sociais e crie ondas para ligarem para o telefone das radios, azucrinarem se tiverem twitter ou orkut, fazendo pressão para tocar suas músicas para seu público. Será uma vitória de seu fã clube! Com os jornais, a mesma coisa, descubra quem conhece os jornalistas, leve-os para seu palco onde ferve, mostre a verdade que existe entre voce e seu público. É necessario que sua cena, o seu bando, os coletivos que voce pertence, todos ocupem estes espaços. Voces são as estrelas do seu bairro, os artistas de sua comunidade, os que irão mostrar ao mundo, depois disso, o valor que essa gente bronzeada tem.

... Escrevi isso assim de golpe, coloquei no blog "Peripecias do Pena", anunciei no twitter que @penas havia subido um texto e fui dormir. Nos dias seguintes, os comentarios e tuitadas a respeito, a rede funcionando, me fizeram acrescentar algumas coisas, depois de pedir licença ao Natale. A primeira é mostrar que todos nós hoje trabalhamos da mesma forma que Isaac Newton, um reformador do seu mundo. Ele reconhecia estar "sobre os ombos de gigantes", ou seja de todos que haviam construido antes o conhecimento, a mentalidade do seu tempo. Nào pretendo ser original, mas quero ser eficiente no discurso. O conceito de tele-horda está lá em algum lugar no meu twitter, com o texto de onde aprendi. Estudem e confiram que o mundo da música hoje se move quando se afasta de tudo que é centralizado, da linearidade e porque acabou com a separação entre centro e periferia. Malcolm Gladwell escreveu um livro sobre talento e concluiu sobre as 10.000 horas de prática, demonstrando inclusive com Beatles, procure. A @amandapalmer, uma cantora fazendo sua carreira seguindo estes principios que cito - mesmo sendo contratada de uma major - está permanentemente conversando com seu público sobre tudo isso, sobre se vender, sobre solidão na sexta feira à noite depois do show, sobre vida de artista. A Maria Rita, o Leoni, o Ritchie e o Leo Jaime, o André Abujamra, a Dani Gurgel, o Teatro Mágico, o povo do Fora do Eixo, eles se debruçam no twitter e ampliam e renovam os laços com seu público dos shows. Gente como @remixtures e @phonobase pesquisam e publicam diariamente o que se escreve e pensa sobre a reforma dos negócios da música. A tele-horda é culta e construtora de reputações. Muito pop.

Depois, imerso no exaustivo processo de ouvir centenas de músicas na seleção de artistas da Feira de Música Brasil, subitamente eu sacava do caderninho e anotava. Senhor artista, voce será julgado, avaliado, comparado. Voce precisa fazer tudo certo, e ainda tem de agradar aquela coisa de gosto ou não gosto. Sem comover as pessoas, pode parecer música, com rabo de música, orelha de música, mas não será música. Pergunte ao seu público, só ele vai falar a verdade com relação a isso, seu público será sincero, mesmo que doa.

Ainda nesse momento quando olhamos para muitos artistas, é possivel entender que uma carreira passa por muitas fases até se transformar numa profissão. É importante trazer fatos para sua biografia, para sua reputação. Concursos, premios, parcerias, colaborações ajudam a definir com quem andas etc mas não bastam. Uma vida na estrada, tocando todo dia, também não é suficiente para tirar voce do chão. Pense em quantas apresentações são necessarias, anos a fio, para ter apenas alguns momentos sublimes. Lembre-se deles, para repeti-los, grava-los, ser reconhecido por eles. Momentos sublimes, coisa de profissional.

Para uma receita de bolo já está comprido. Se voce se identifica ai por cima, benvindo à uma profissão de futuro. Para quem contrata, o bom artista é aquele que já vem com público.

Pena Schmidt
www.auditorioibirapuera.com.br

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Por uma verdadeira Lei da Cultura.

Que o projeto a ser encaminhado consiga trazer as mudanças que irão fazer crescer a cultura do Brasil em todas as suas formas, das receitas culinarias à arte industrial das novelas exportadas, a música popular e os contadores de história, os museus e as instituições culturais com marca, as artes, os oficios e o sacerdocio.
Que o projeto traga esperança para os pequenos e regras para os grandes.
Que o projeto diga que a cultura é feita por autores, interpretes, artistas, intelectuais, poetas, comunidades e familias, nasce de pessoas e deve privilegiar quem respeita os criadores.
Que o projeto tenha lucidez para lidar com o comércio e a industria cultural, que ampliam o poder da mente criadora individual, mas que para existirem precisam do lucro, não podem por isso ser excluidos do fomento à cultura nacional.
Que o projeto inclua as empresas pequenas e as pessoas fisicas como contribuintes da cultura, por interesse mesmo que de marketing ou do ganho financeiro, porque estarão financiando a cultura local, a cultura periférica, que só os individuos e a pequena empresa podem perceber e avaliar.
Que a lei seja capilar e rizomatica, facilitando de verdade a entrada do produtor comum e do artista fora do circuito comercial, estes precisam de simplicidade e confiança no trato, como cidadãos da cultura.
Que a lei faça proliferar o interesse das grandes corporações pelo seu papel como gigantes da cultura também. Que nasça um instituto para cada bilhão de reais. As instituições perenes trazem processos de longo prazo, sedimentam o pensamento sobre a cultura, acalmam a turbulencia natural de tantos eventos pontuais, geram gestores, criam a cultura da cultura. Mesmo que carreguem marcas, porque apoiam a cultura.
Que haja bom senso para estabelecer critérios generosos para acolher tanto projetos quanto patrocinadores e que se criem, isto sim, obrigações que atendem e servem á cultura: o acesso, a pedagogia, a geração de empregos, a formação de público, a cultura duradoura.
Que esta discussão toda mostre que a cultura não pode ser , mesmo, só 0,6 do orçamento, 0,6 do tempo da presidenta, 0,6 do futuro dos jovens.
Saravá, projeto!

No site do Minc postei como cidadão José, preferi ser só mais um.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Corda, árvore ou bananeira? Elefante.

È uma correspondencia sobre pensar música e os personagens são a Marcia Tosta, autora do "Os Donos da Voz" e o Juliano Polimeno, do Phonobase e que é uma pessoa semantica.



From: Marcia Tosta Dias
Sent: quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009 01:27
To: pena.schmidt
Subject: Desculpe, o anterior foi incompleto!

Querido Pena,
eu queria era enviar o projeto pronto. Mas como ainda não dá e pra você não achar que estamos por aí usando seu santo nome em vão, dá uma olhada na idéia que eu mandei pro Juliano Polimeno pedindo sugestões! Se for o caso já dá logo o corte ou o toque que falta.
BJS
Marcia

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A idéia é a de, aproveitando o quanto se pode a espantosa frase do Pena "eu estou aqui às ordens!" (vc viu, né?), propor a realização de dois debates nesse semestre, dando continuidade ao que se pensou ser a série Pensar Música (debates que acontecem num fim de tarde, no começo da semana, dirigidos aos interessados em geral e aos alunos da escola de música do AI). Depois daquela sessão inaugural e geral, quero propor que a gente detalhe um pouco mais as questões que achamos as mais importantes desse panorama em transformação que é o da produção e difusão de música gravada. Gostaria de evit ar, pelo menos a partir da forma como a discussão será proposta, a polarização do debate entre "apocalípticos e integrados", como te disse. Peço então a sua ajuda, o seu palpite, sugestões sobre esses temas.
A primeira idéia que apresentei ao Pena para a primeira sessão, sem no entanto ter finalizado, proposto nomes, quer refletir sobre o trabalho do produtor musical na atualidade. Isso significa refletir sobre o passado (e é claro que estou pensando nas biografias de que falamos) e sobre esse legado vis-a-vis a transformação atual. Seria o fim do trabalho desse agente social da coisa, o que se ganha tendo um bom produtor musical no processo de produção de um disco, seja lá onde ele for feito? E que se perde? Seria exemplar para o lance a contribuição de um cara como o Mazzola (vc leu?) que tem uma trajetória grande nas majors e depois faz uma pequena, e escreveu um livro, etc. o meu sonho é com o Midani, mas não sei se é viável... e eu semp re quis muito, mesmo se parecesse ser modesto (e pára aí a música!!!) Mas temos que conversar com o Pena pois várias sintonias tem que ser organizadas aí. Então, peço sugestões. Poderia ser o Mazzola, o Pena e um mestre de cerimônias e por aí podemos ver. O que vc acha?
A segunda sessão proporia o seguinte desafio: dois convidados (quem?) com condição e coragem de enumerar sistematicamente 10 itens entre perdas e ganhos trazidos pelas transformações contemporâneas no panorama da produção e difusão de música gravada. Olha aí, ficou até bonito!!!! O objetivo: levantar as questões de fundo, fugir das polaridades exageradas e contribuir com o exame e o debate de maneira didática e mais organizada. A questão: quem chamar????? É o que eu te pergunto!



qui 19/2/2009 22:38

Caros Marcia e Ju

Como ando tuitando loucamente e o assunto sempre vem, estou preparado para reagir ao ser cutucado, abro a wikipedia.

Sejamos enciclopédicos, escatológicos, semióticos e hermeneuticos, completos porem simples e modestos...

É mais que a produção e difusão da musica.
Estamos falando da transformação atual da sociedade, uma mutação de “fim de mundos”.
Vamos usar a Música, que já conhecemos, para pensar sobre o mundo, para entender como fica?
Vamos entender a Música como arauto do resultado da transformação? Que no fundo somos os mesmos, com melhores ouvidos.


Quais são estes 10 itens que fatiam o salame?
A partir desta lista surgirão as diferentes descrições de cada fatia a partir de cada ponto de vista.
Esta lista existia antes, analogica, continua existindo digital e continuará existindo sem fio.

Por exemplo:
Criação como ponto de partida
Interpretação como caminho do artista
Fixação como surgimento da obra
Distribuição como transporte da obra
Exibição como encontro com o espaço
Fruição como o encontro com o público
Catarse como o efeito no público
Partilha como o reconhecimento entre o público
Fundação como o alicerçamento na memoria coletiva
Recriação como o ponto de chegada, o ombro dos gigantes

Que gera um novo ponto de partida

Pronto deu dez!
Podem ser outros dez ou outros nomes e podem ser divididos mais para cá ou mais para lá, mas este percurso persiste. Sim? Concordam?

Daí é descobrir a maneira eficaz de como pedir para as pessoas, inclusive o público, contribuir com sua visão, opinião, percepção de cada pedaço ou da relação entre os pedaços. To afim de crowdsourcing.

Se não organizarmos o fluxo o transito pára, caimos no ideismo achistico atual, essa coisa de só termos passado, só conta a experiencia do passado, o vinil, a gravadora versus o futuro da música, a morte do Cd, a cultura livre, o próximo orkut. Tira o “versus” daí e vamos botar um “vezes”, de multiplicado por.

Assim, esta discussão pode ter um lado menos enfatico na História da Arte, de como eram as coisas que Pena, André, Mazzola, Lima, Zuza viram, sem desrespeito, mas também em como criar, interpretar, produzir, distribuir hoje, para quem, com que resultados. Os meios, modos e métodos podem ser os mesmos? Como aprender a ter senso crítico para saber o que serve e o que não serve? Há uma ética musical? Sinceridade ou Técnica?

Ainda, onde estão as profissões hoje, neste percurso? Quem são os agentes e o que eles estão fazendo, em que partes do percurso?

Cada vez mais encaro a produção musical com diferentes qualificativos.
Produção musical para o futuro, e não para o mercado. Não vejo o mercado, aquele mercado fonografico de cópias e imagem irradiada, participando do futuro. Não descrevo o que vai acontecer porque nem imagino, mas com o que vemos hoje é possivel dizer que já não é mais, certo? Produção musical para o futuro, sabendo identificar o tal percurso e sabendo percorre-lo. Trabalhar para o público, administrar recursos para encontrar o público, saber se conectar com o público, apresentar seu trabalho de forma consistente, cada vez melhor. Vejam que não há muito mistério em realizar as coisas, a produção como técnica virou linguagem corrente, os equipamentos baratos funcionam produzindo resultados de qualidade, som é commodity. Gravar nem se fala, editar, mixar, adquire-se resultados premium pela pratica diaria que o notebook garante. Em 1980/90 um produtor de sucesso usava 2000 horas de estudio por ano. Qualquer menino passa 3000 horas/ano com o mouse na mão, manipulando sons com muito mais eficiencia, as tais 10.000 horas de prática que definem os talentos se fazem em tres anos, todo mundo. Fiz meu ponto sobre produção de estudio?

Resta esta forma da rede, mais holistica, mais social, mais abrangente de ser artista e conseguir reverberar. Radiohead quer bebedouros para encher suas garrafinhas de agua. OK, são os mesmos que perguntaram quanto voce quer pagar. Os eruditos que vão participar da Orquestra do YouTube. As mil quitandas de música que se formam na rede, movidas a banco de dados, tags, catálogos infinitos, recomendações e semelhanças, e que vão criar uma nuvem de músicas, goticulas culturais mudando de aparencia com o vento. O produtor musical será alguem que encoraja o artista a viver nesse mundo real, das pessoas entrelaçadas por bits, partilhando.

Resta o público e sua cultura, a velha cultura do passado, de raizes fundas que todo mundo canta ou bate o pézinho, a cultura pop do RTV, LP, CD e K7, mais o que se ouviu junto por ai, tudo isso que já está lá dentro do público, tudo isso pode fazer parte do que se usa para produzir música que reverbere hoje para garantir seu lugar no futuro.
Opa! Nessa hora, a História da Arte fica importantíssima! O produtor agora precisa ouvir, outras 10.000 horas ouvindo tudo, não é só uma questão de opinião, mas de conhecer o que está lá dentro de todo mundo. Antes alguns programadores de radio com este papel iluminavam o caminho.

Resta o espetáculo, o momento da verdade, que precisa de forma, roteiro, acabamento, ritmo, carpintaria, humor e drama, é o mesmo espetáculo fazem 40 mil anos de idade, uma flauta e uma fogueira. Como público eu e voces sabemos que funciona, ou não. A produção musical, ofuscada pelo brilho das lampadas, não fez da produção de espetáculos uma ciencia, nem mesmo um artesanato. Zero, nada consta, não se fala que é preciso produzir, como em construir, um espetáculo musical, nada além de um rol de roupa, um ritual burocratico, o rooming list, rider de som e luz e o “roteiro/programa” de músicas... As lampadas acesas farão o trabalho de ligar a imaginação do público, como as chamas na idade da flauta de osso furado. Vejo aqui uma fratura exposta.
A música perdeu-se em algum lugar, achando que eram apenas sons organizados e basta. Não basta. É preciso um maestro e sua varinha de condão para nos fazer acreditar na mágica. Foi preciso uma industria inteira apoiada na imagem e no texto, na lenda pop, para nos fazer ouvir e acreditar no vinil. O espetáculo faz parte do trajeto e está a pé, fora da rede, não mapeado, não discutido, não experimentado, não praticado. As exceções comprovam a regra. O produtor musical de futuro precisa começar suas 10.000 horas de produção de espetáculos.

Bem, eu me empolguei, e me deixei levar. Temos de pensar em como dizer isto para os alunos da Escola do Auditório. Estou tateando o elefante: corda, árvore, bananeira.

Marcia, não sei se ajudei. Pior, vou postar.

Abs

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Como era O Futuro da Música, em 2004

"Aos sócios da ABMI

MIDEM 2004

Estive no MIDEM em fins de janeiro último, a convite da BM&A, representando a ABMI.

Abaixo, os tópicos que anotei durante o evento, com comentários atualizados.



1) A fachada do Palácio das Exposições foi o prenúncio. Os novos aliados da música estavam presentes em grande estilo. A Apple veio dizer que 10.000 músicas cabem no seu bolso. A Microsoft tinha uma ilha bem no meio do corredor central, mostrando 30 modelos de players digitais de até 40GB, todos minúsculos e já a venda. Haja música. Ponto importante, a maioria destes sistemas toca mp3 livre e formatos protegidos com DRM, que agora estarão competindo entre si.

2)Temos uma batalha de formatos em pleno curso:

♪ O mp3, considerado universal e simples, mas que não tem um modelo de negócios, como cobrar pelo conteúdo. Os sites de venda de mp3 ainda não tem resultado financeiro. É defendida pelos que acreditam em modelos de cobrança centralizada, taxa nos players ou no uso da Internet, p.ex. para ser distribuída aos donos do conteúdo. Não carrega muitas informações além do nome da música, álbum e artista.

♪ O formato AAC, do padrão mp4, com DRM da Apple, que é usado até agora só pela Apple em sua iTunes Music Store. Compete pela qualidade e melhores informações dentro do arquivo, o chamado metadata ou audiodata, acrescentando informações sobre autores e selo.

O formato WMA da Microsoft, cujo DRM é o mais difundido, o nosso iMusica e a maioria das lojas de download estão usando. Exige Windows.

A Sony defende o ATRAC, sistema de compressão já usado nos MiniDiscs, recentemente lançou o serviço Connect Music Store, de venda de download protegido com seu DRM, com o objetivo de vender Minidiscs com seis horas de música. O repertório é uma evolução do projeto So-Net, conhecido da ABMI, com ênfase em independentes.

3) O MIDEMnet, um seminário dedicado às coisas da Internet, que acontece no dia anterior num auditório de 800 lugares – estava lotado pela primeira vez em cinco anos que se realiza. Pela temperatura dos debates e pela importância dos participantes, dá para dizer que o futuro do MIDEM e da própria indústria fonográfica que estava se desenhando ali. Na platéia, metade eram produtores fonográficos e a outra metade eram os novos parceiros em todas as suas variantes. Os painéis, debates e apresentações traziam novas idéias e conceitos que precisam ser digeridos pela indústria.

4) A apresentação do chefe da loja iTunes da Apple trouxe noções importantes.

O consumidor típico gasta 9 dólares numa visita. O maior comprador gastou 23 mil dólares e foi procurado pela Apple, que descobriu um cidadão normal, que comprava música para toda a sua família regularmente e achava isso um excelente investimento para seus filhos.

As maiores vendas refletem a parada de sucessos do rádio, até então não havia nenhum sucesso da Internet, mas estão fazendo força para conseguir isso, buscando material exclusivo. Os artistas estão aceitando muito bem a idéia de lançar com exclusividade no iTunes Music Store. O top 100 representa 10% das vendas.

Com a versão para Windows do software player de musicas iTunes a Apple dobrou a velocidade de vendas na loja. Até janeiro somente usuários de Mac conseguiam comprar.

A Apple não tem lucro operacional significativo com a loja, é apenas um “killer application” vendedor de iPods, que tiraram a Apple do marasmo de vendas, 700 mil vendidos no Natal de 2003. O iPod tem 30% do mercado de players e cresce.

Importante para os Independentes: as vendas são horizontais, de 400 mil músicas, 95% vendeu pelo menos uma vez por mês, ou seja, há publico para todos os gêneros e artistas. Resta saber se continuará havendo ampliação do catálogo ou se irá haver uma busca do sucesso, já que há um custo em se manter uma base de dados tão grande. A Apple não tem esta resposta.

♪ Na opinião da Apple, o grande desafio será conseguir a interoperabilidade entre todos os formatos e players.

5) A grande surpresa anunciada foi a presença maciça da indústria dos celulares, chamados de mobile, devidamente representados por executivos de alto nível. A importância do setor pode ser medida pelo tamanho do mercado: em 2007 serão 1,5 bilhão de celulares no mundo e 500 milhões de usuários de Internet. (Em 2005, no Brasil, se espera que haja 20 milhões de usuários de Internet e 50 milhões de telefones celulares.) Todos os fabricantes – Nokia, Motorola, Siemens coincidiram em seus pontos de vista.

Depois de fotografia no celular, a próxima aplicação desejada em primeiro lugar pelo consumidor é Música, de muitos modos e com muitas possibilidades. Todos os novos modelos apresentados tocam música com qualidade de áudio, os truetones. A Nokia mostrou seu aparelho que já tem um rádio FM e mostrou um sistema em que a rádio FM transmite dados e se comunica com o ouvinte pelo aparelho, podendo fazer, p.ex. escolhas entre três músicas on-line, com o usuário votando no seu telefone.

♪ Outras possibilidades são a incorporação de memória ou mesmo HDs, para se carregar a coleção de músicas no telefone, ou ainda, comprar pelo telefone a música que se ouve no rádio, que será descarregada pelo computador em casa. As tecnologias estão prontas.

♪ Todos os fabricantes estressaram que toda música que circular por celulares será protegida com DRM, sem trocas de músicas entre aparelhos.

♪ O telefone vende sucessos, porque não é o lugar para se pesquisar catálogos. O consumidor quer alcançar o que deseja em três clicks. A não ser que o rádio seja usado para mostrar as opções da diversidade.

6) O grande tema que deverá ser discutido nos próximos meses é a estrutura de autorizações (copyrights) que existe hoje, desenvolvida nos últimos 50 anos para a distribuição de músicas em lotes de 14 músicas em cópias de plástico – o CD e antes disso o LP. Grandes barreiras impedem o crescimento destas novas distribuições – download, ipods e celulares. A Apple confirma que tem a sua loja voltada apenas para residentes nos USA, por falta de acordos coletivos com os detentores de Direitos Autorais na Europa e no resto do mundo. Cada país tem sistemas diferentes e é inviável a negociação com cada proprietário ao se montar catálogos com centenas de milhares de músicas. A Microsoft, através do MSN, está projetando a abertura de uma loja, mas enfrenta o mesmo problema. A Sony optou por valorizar a captação de independentes para sua loja. O Napster disse que está montando uma estrutura legal para cuidar disso, mas confirma que dificulta a entrada de repertório.

7) Ainda no MIDEMnet, algumas apresentações se destacaram, como a empresa que montou uma unidade móvel de fabricação (queima) de CDs em shows, capaz de entregar 400 CDs 8 minutos depois do final do show e que já está participando de grandes shows, com vendas de 4 mil discos. Outra iniciativa interessante é a da maior empresa de conteúdo para celulares do Japão – ringtones, figuras, animações e vídeos, que montou um selo para produção de música a partir dos celulares. Veja Temas de ringtones são desenvolvidos por DJs, que depois criam remixes e versões musicais destes temas. Estas músicas circulam no ambiente dos DJs, as casas noturnas, e fazem sucesso quando o público saca seu telefone e remixa suas campainhas com a música que o DJ está tocando. O objetivo é levar estes sucessos para o rádio. Outra empresa mostrou soluções para levar a sua coleção de mp3 para serem tocados no rádio do carro.

8) Fica a impressão que a música tem muito a ganhar com estes novos aliados, que abrirão um mercado real muitas vezes maior que a venda de CDs. A Internet tem mostrado que o público de forma nenhuma perdeu seu interesse pela música, mas a industria terá de achar um novo ponto de equilíbrio entre os diferentes fatores, trazendo mais música por menos dinheiro, garantindo a qualidade sonora, criando condições para que com dados confiáveis se organize melhor as coleções de música, e principalmente garantir o fluxo da inovação tecnológica, da renovação de repertório e o acesso à diversidade e aos novos artistas.

Os novos aliados trazem uma mudança nos ventos que inevitavelmente vão alterar o curso da economia da música.

Primeiro porque são forças gigantescas comparadas a indústria fonográfica. Foi dito lá que todo o orçamento de publicidade da indústria fonográfica é igual ao orçamento de marketing da Apple, que por sua vez é apenas 1 ou 2 por cento do tamanho da Microsoft. Estamos falando dos líderes de tecnologia.

Segundo, os novos aliados têm todo interesse em usar a música mas são unânimes em dizer que não querem comprar o negócio, não é o ramo deles.

Terceiro, aparece a possibilidade destes aliados financiarem a circulação da música, porque lucram na venda de seus produtos e serviços e não na venda da própria música, da mesma forma que os anunciantes viabilizaram a universalização do rádio e da TV.

E finalmente, porque se trata de uma questão estratégica de Estado, da permanência das culturas nacionais. Seja qual for o modelo da indústria daqui a cinco anos, se ele não permitir a nossa sobrevivência como produtores independentes, teremos perdido a batalha como nação.

9) E este último ponto traz a seguinte observação: as nações estão se mobilizando para participar da evolução da indústria da música. No MIDEM, era notável a presença dos estandes nacionais e das iniciativas como o governo francês anunciando que irá tomar medidas para facilitar os acordos coletivos. Diversos países europeus estão montando agências para a exportação e fomento de suas músicas, criando organismos para definir regras e padrões comuns de negociação e tecnologia, para resolver estes gargalos.

10) O CD não morreu. Ainda é o formato da maioria e deve durar uns bons anos, antes de perder seu lugar como veículo de música. Em 2003 circularam 30 bilhões de músicas no formato CD.

11)O MIDEM é movimentado por pequenos selos procurando e oferecendo músicas de segmentos, como é a música brasileira, o jazz, a produção independente mundial e estes selos prioritariamente vendem CDs. Os selos mais organizados desenvolvem campanhas de marketing alternativo que acompanham o licenciamento ou venda de seu catálogo, sempre apoiados nos lojistas especializados, com material de ponto de venda, vídeos para lojas etc.

A conclusão é que produzir música é o cerne do negócio e que iremos circular e distribuir essa música por mares nunca dantes navegados. Vamos ter que rever o papel do marketing e da divulgação, para variar.

Grande abraço.

Pena Schmidt

Maio de 2004"