sábado, 23 de fevereiro de 2013

Os Robocarros 1

(Origilmente pub. Em fev 2013)

Eu tive um sonho...não haviam mais congestionamentos.

O carro sem motorista pode chegar ás nossas ruas antes do carro elétrico?

Disruptura

Ainda não achei uma tradução que prestasse para a palavra "disruption". Pode ser interrupção, quebra, ruptura. Disruptura existe?  Disruption tem sido empregado para descrever o que acontece com empresas ou setores da economia que encontram um concorrente digital que literalmente dissolve o negócio. A disruptura que as máquinas fotográficas causaram no negócio da fotografia, por exemplo: sai de cena um negócio de 100 anos e começamos tudo de novo. Cada vez mais este é um processo em aceleração permanente. A industria fonográfica, uma das primeiras, se não foi a primeira, a sentir o calafrio da dissolução causada pela entrada no reino digital. Tudo que se digitaliza entra para a fila de espera da inovação digital que desmancha o negócio analógico. Os jornais, os livros, os relógios, o correio, o cinema, tudo se transforma quando digitalizado. Os antigos impérios industriais se renovam em cima da internet, agora diluídos na mão de programadores ou de empresas de captura e organização de bits. Estamos todos nos transformando em processadores de informação. Quase tudo que fazemos com nosso tempo é lidar com informação digitalizada. Com as impressoras 3D, as coisas estarão sendo digitalizadas e lá vamos nós, rumo a muitas outras disrupturas: aparelhos de barba, talheres e pratos, óculos, brinquedos. Coisas adeus, vocês estão na fila. 

Mas pode ser mais louco ainda. O automóvel vai entrar na roda.


Nas ultimas semanas, notei que alguns lugares do mundo estão anunciando que autorizaram a circulação de carros sem motoristas por suas vias. Li por ai, nas redes. Oxford na Inglaterra, a California e outros estados americanos. Procure no YouTube por driverless ou self-driving car e lá está o carro do Google, mas também dos fabricantes e das universidades, todo mundo testando. O conceito está na rua, é de quem fizer primeiro. E nada impede de acontecer aqui no Brasil. Alo FEI, ainda tem engenheiro automobilistico por ai? Uma vez demonstrada, a idéia absurda é razoavelmente simples. Para tudo acontecer precisamos de um automovel comum. Não é preciso ser um carro elétrico ou topo de linha. Digo mais, o carro sem motorista vai chegar às nossas ruas *antes* do carro elétrico, porque requer menos inovação. Precisamos de um carro comum com algumas adaptações: um sistema de motores pequenos, para acionar a suave direção elétrica. A aceleração eletrônica também está pronta. Um controlador para o breque, acesso às luzes e pisca pisca e pronto, seu carrinho de fábrica já tem a interface para o computador que vai reger o carro. Computadores também estão no ponto, imagino que um netbook teria potencia suficiente de processamento, memoria e velocidade, nada sério. Ao computador vamos ligar um GPS de precisão, pronto. Vamos ligar também um celular com dois chips, por redundancia e vamos ensinar este celular a manter um sinal de 3G sempre ativo, alternando entre as operadoras caso necessario. OK, vamos fazer com 4 chips de 4 operadoras... Estou descrevendo a versão brasileira do carro sem motorista. A ideia é ter uma via de internet sempre aberta, acessando os mapas, estes mapas tão completos e uteis que já usamos, prontos.
Entram em ação os hackers, que precisam pedir emprestado um software de "auto-direção" que já esteja sendo usado e testado, precisamos adapta-lo á nossa moda de dirigir. O programa que faz a porra toda funcionar. É só um programa, código, alguns Mb, mais simples que o photoshop, imagino. Vem por email.

Falta algo, o sistema de sensores que vai descrever para o computador o que está acontecendo em volta. Radares automotivos 360 graus. Em 30 segundos localizei o consórcio europeu que está tratando de normalizar o assunto... Já tem o similar asiatico funcionando, certeza.

Deveria estar fundando uma startup.

Porque não passa disto, juntar uma porção de coisas que estão prontas, faze-las funcionar de uma forma nova, sobre a qual ninguem teria o que reclamar, afinal, voce só está ensinando um automovel a fazer o que ele foi feito para fazer!!!
Um instante de sincericidio. Eu não tenho automóvel, eu não dirijo automóveis, eu nunca aprendi a dirigir. Portanto, terei lucro pessoal no caso desta história atrair seu interesse e ganancia.
Suponhamos que em seis meses, um ano, alguem consiga fazer um carro andar sózinho pela Vila Madalena. Um carrinho nacional fora da garantia. Para não causar suspeitas nos guardas de transito, foi colocado no lugar do motorista a metade superior do Ricardão, aquele manequim de fiscal da CET que foi sequestrado. Do lado dele, um empreendedor com um controle de PS2 para ir acertando o algoritmo. Depois de algumas voltas e dentro da normalidade, com arranhões e pedaladas de motoboy, o protótipo seria batizado Beta, 100% reciclado. Pintado de branco, iniciaria uma vida de taxi pirata, atendendo só pelo 99Taxi, trocando SMS com seus fregueses e recebendo só cartão. Possivelmente teria uma vida util de tres anos antes de ser parado numa blitz ou afogado numa enchente.
Outros protótipos seriam construidos. A Santa Efigenia e a Rio Branco se uniriam para oferecer os kits e a instalação dos kits. Apareceria uma comunidade no Orkut chamada "veja mãe, sem as mãos".  Santa Rita do Sapucai, MG, a cidade da eletronica seria a primeira a autorizar o uso da via pública para os auto-carros. Dois anos depois do Beta sairia no Fantástico e na Folha, seguidos de veementes editoriais contrarios à moda dos auto-carros, apesar de ninguem estar vendo nenhum problema.
Em dois anos, como aconteceu com os carros a gás, teriamos uma industria alternativa, produzindo, distribuindo e instalando auto-carros com garantia das fábricas...
Como o unico acidente fatal acontecido por culpa de um auto-carro aconteceu porque ele levou um raio, ele passou a ser percebido como seguro, na verdade, bem mais seguro, muito mais seguro, absolutamente seguro, por não beber, não ter humores nem dias piores, não ter um ser humano falivel no comando.
O auto-carro inicialmente se comportava no transito de forma normal, seguindo em frente quando possivel, dando setas antes das curvas e respeitando ciclistas, isto influiu muito num relacionamento amistoso mutuo.`
À medida que a frota foi aumentando, as pessoas passaram a perceber que dois auto-carros juntos se comportavam como um unico, parachoques colados, acelerando e brecando juntos. Coisa de quem está em rede, trocando informações na velocidade da luz. Tres carros juntos no transito começam a ocupar menos espaço. Claro que o software foi sendo aperfeiçoado para brincar de trenzinho e também para ir chegando nos limites. É divertido ver comboios de meia duzia de carros indo na mesma direção, parachoque com parachoque, no limite de 90km/h da Marginal, contornando os motoristas sem nunca esbarrar em nada. Competições intermeios em trajetos na hora do rush, que sempre eram vencidas por ciclistas, passaram a ser lideradas por auto-carros,  por sua capacidade em seguir percursos alternativos sem se perder. O seguro quase gratuito, a economia de combustivel e as revisões mecanicas programadas automaticamente fizeram com que houvesse um clamor popular pela venda de auto-carros zero. Durante a Copa, turistas de todas as nacionalidades que se jogavam na frente dos autos para ve-los parar automaticamente se acidentavam quando haviam motoristas presentes. O tema dos autos dominou a eleição e não deu outra manchete. 

Haddad reeleito: vamos acabar com os congestionamentos.


Dai para a frente vira especulação, não quero iludi-los. Forças estranhas se aliam e geram resultados imprevisiveis. Mas algumas coisas serão inexoraveis. Leis ampliando a punição financeira para motoristas bebados ou desatentos e a proliferação de autos coletivos, autotaxis e aplicativos para caronas começam a mudar o desejo de posse de carros. Pela primeira vez em São Paulo diminui o numero de carros licenciados, a cidade exporta seus carros usados para o Paraguai. A frota de autos atinge 30% e a velocidade urbana retorna para os niveis da década de 80, média de 26km/h. Camara aprova criação de faixas exclusivas para ciclistas e motos, redes sociais caem matando dizendo que não precisa, se tiver mais autos. Autos vazios são queimados por mascarados. Conflitos se espalham nos bairros. Frota de autos atinge 50% e CET inicia retirada de semaforos. Estudos apontam: menor indice médio de congestionamento já medido na cidade de São Paulo. Não gostaria de acordar agora, juro.

***

Mas acordo com um susto: esqueci da caixa de cambio no meu dream car... dai que não pode ser um carro comum, teria de se instalar uma transmissão eletronica, que muda as marchas num botão, como se usa nos carros de F1 e nos carros adaptados para pessoas com deficiencia. Isto pode adiar os planos. Fui procurar e não existe solução simples. Foi divertido mas eu disse que era um sonho, certo? Disrupturas geralmente começam assim.


Um comentário:

  1. Continuo achando que a relação um motor para cada passageiro é pouco eficiente. Prefiro a relação um motor para cada 40 passageiros ou 300 passageiros como no caso do transporte coletivo. Mas que o futuro que voce pinta é um futuro bem mais simpatico do que esse presente, isso é.

    ResponderExcluir

Sua opinião é bem vinda.