sábado, 7 de junho de 2008

"Distribuição" de música? Que tal aleluia?

O pessoal do Guia da Música Brasileira esta produzindo um seminário em SP depois de ter percorrido o Brasil durante um tempo. Me chamaram para falar, propondo um tema, uma pergunta que ouviram por ai. Eu devia gerar uma lauda, para ser incluida no livro resumo do projeto e que servirá para minha fala. Preferi ser apocaliptico e apoplético, já que ser pragmatico me parece perda de tempo no assunto, cada um com seus problemas.


Distribuição e música on-line em Movimento. Como a política pública, as
associações profissionais e os artistas poderão colaborar para encontrar
soluções para a distribuição hoje da produção artística musical e estimular
a utilização das novas tecnologias aplicadas à indústria da música nas
diferentes etapas de sua cadeia de produção?


"Movimentos são necessarios para se caminhar, da colaboração dos
interessados até a eficacia das ações coletivas. A formação da ABMI, a
criação de novas associações, como a ABRAFIM e o inicio de atividades
agregadoras como as feiras e congressos dedicados á música apontam um inicio
do processo. Mas em outras frentes não se concretiza o diálogo, não se
fundem novos corpos. Músicos e seu Forum Nacional, e a Camara Setorial da
Música dentro do MinC, por exemplo, não frutificaram. Não se discute as
causas, mas constata-se o fato de que ainda não temos uma assembleia capaz
de representar todos os setores, ainda não há quorum para ações de mais
fundo e folego, para pensar a Música Nacional, para mudar a Constituição a
favor da Música, dos Músicos, da Industria e da Classe Musical, do Público,
pela Cultura.

Isto pode vir a ser uma necessidade próxima, urgente, quando se fizer
patente a necessidade de uma transformação estrutural da grade de leis e
acordos que regiam satisfatóriamente o setor nas ultimas décadas, mas que
hoje não conseguem conter a anemia, impotente perante o novo mercado, a nova
economia, o ambiente que a tecnologia digital trouxe para o bem e para o
mal.

A cornucópia virtual, dos bens imateriais subitamente sem onus material - na
rede, no celular, na palma da mão - pede uma nova noção de valor para a
Música, mais universal que a venda da cópia, mais livre de atrito que a
cobrança em cada transação, jamais ignorando que há valor em cada fruição,
em cada apreciação do trabalho artistico, mas ao mesmo tempo liberando a
Arte, o conteudo, para trafegar livre como os bits e os elétrons que agora a
carregam. É necessario um novo big bang artistico e autoral, criar uma
arrecadação inicial, um único ponto de cobrança no principio de todos os
processos de expansão e multiplicação, cuidando de todos os direitos e de
forma simples, democratica, permanente.

A distribuição de uma arrrecadação única é tarefa de Hércules, especialmente
no esforço de conter os apetites, mas existe a lógica do valor mensurado
pelo poder de capturar o ouvinte, pelo numero de vezes que circula, pela
demanda. É uma tarefa numérica, e nisso os bits são muito bons.

Estes conceitos, ainda recem formulados, circulam pela rede e vão procurando
seu lugar no mundo real. Continuam existindo as leis de mercado, o arcabouço
fiscal, algumas lojas de discos onde ainda se vendem CDs e as lojas de
internet, com catálogos minguando mas vendendo também LPs e vitrolas USB. No
dia dos namorados os artistas romanticos autografarão discos que eles mesmos
venderão. Mercados de nicho, artesanatos, bijoux e souvenirs. Enquanto isso,
teremos mais de um celular por pessoa, cada celular poderá conter números
absurdos de arquivos e poderá acessar a nuvem de arquivos com todas as
músicas do mundo sem que se precise saber como nem talvez quanto custa, só
para pensar pequeno.

O modelo necessario para uma nova "distribuição" de música não será mais um
simples acordo entre partes comerciais, terá de fazer parte da Constituição,
um contrato social que irá mudar as leis. Se a Música quiser se beneficiar
de uma realidade que inexoravelmente caminha em nossa direção, será preciso
uma reforma abrangente, que envolva todos os setores atuais e os novos
parceiros, os digitais e as telecoms. Será preciso em alguns anos refazer
acordos que levaram décadas para se costurar.

A Música deve se organizar em torno de sua demanda mais básica, a de que
seja reconhecido que há um valor devido á Música cada vez que se cobra para
proporcionar a sua fruição, e que este valor deve ser devolvido á Música.
Este talvez seja o ponto de partida para a colaboração em busca da solução, senão, será
cada um com seus problemas."

Pena Schmidt
Auditório Ibirapuera, jun 2008

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