sábado, 7 de junho de 2008

Uma lauda sobre os anos oitenta.

O SESC Pompeia me pediu uma lauda sobre os anos oitenta, para incluir no programa de um um espetáculo que acabou de acontecer, A Era Iluminada, com interpretações da época. Ok, eu estava lá, não precisava fazer nenhuma pesquisa, era só escrever. Topei, dizendo que teria de ser um texto escrito num jato, sem edição. Toparam e deu nisso:


"Todo brasileiro sabe que o melhor momento da feijoada é a hora de montar
seu prato, cada um com sua preferencia cuidadosamente calibrada na
composição nutritiva e nas cores. Os anos 80 foram um enorme buffet de
feijoada, entenderam? Cada um escolheu ali o que seria de seu futuro, e
teve de tudo. Inflação, por exemplo, que começou a década com 100% ao ano e
terminou com 14 mil porcento, hiperinflação. Mas também cresciamos como
nação democratica, finalmente votamos pra presidente e escolhemos o Collor.
Engatinhavamos nas recem recuperadas liberdades de expressão. Inútil foi
citada no Congresso como manifestação a favor da democracia. A gente não
sabiamos escolher presidente. Exportamos armas para o Iraque, eramos
orgulhosos fabricantes de Urutus e foguetes Astros. No final, o Suba começava sua injeção de eletronica na música popular brasileira, mas antes disso algumas
bandas paulistas se exercitavam no dialeto eletronico como o Azul 29 e
Agentss. O minimalismo do Steve Reich se propagava pelo universo pop, o The
Police fazia uso das mesma nota repetida do começo ao fim. Menos já era mais. O Ultraje e o
Gil brincavam de reggae, coisa do Liminha, por causa disso eu fui conhecer
a Jamaica e vi que o reggae era verdade, música popular e não coisa de
ingles pop. O Glauber Rocha fez A Idade da Terra antes de morrer e fiquei
com aquela experiencia de falta de roteiro como arte possivel. Os Titãs no
estúdio, gravando Sonifera Ilha, com tecladinhos e uma falta de jeito de
principiante, mas abrindo a janela para uma deslumbrante paisagem sonora,
tropical e aconchegante, me enche de luz. O Brasil se reconheceu ali
naquela mistura de James Bond com Belem do Pará, o futuro maduro. E vinha
uma geração faminta e folgada, querendo ocupar todo o espaço, do Chacrinha
ao Circo Voador, do Radar Tantã ao Rock in Rio. Viamos Marisa Monte no
Aeroanta, onde aconteceu um bom pedaço do desenho deste nosso presente, Bem
Que Se Quis. Nas Ruas, onde eu me sinto bem, o Ira desenvolvia a
sinceridade moderna. As bandas trocavam de membros, sai André Jung entra
Charles Gavin, nas internas, eramos tripulantes da mesma nave, um onibus
mágico rumo ao futuro. O Rio era diferente, mas o Cazuza firmava seu poder,
pensando o seu Brasil que tinha uma cara de jovem corajoso, quase heroi que
dizia que fazia parte do seu show, tudo normal. Nas ruas, o Opala era um
pacificador, podia ser esporte, diplomatico ou taxi. Clara Crocodilo,
lembra, bem no começo de tudo, quase um fato sozinho no inicio dos tempos,
a vanguarda paulistana dizia um discurso, Arrigo Barnabé era ardido e
aspero, mais radical que os os punks do teatro A Pulga, onde o Magazine
nascia depois de ser Verminose durante anos, desde 1980, pós punk. Sou Boy
fazia parte do repertório desde o primeiro momento, autoria de um
verdadeiro ofice boy, vinhamos todos da Continental, gravadora sertaneja
tradicional da Avenida do Estado e onde se gerou este broto de DNA com a
cultura da firma, do emprego urbano, cronica como Noel Rosa e Adoniram
Barbosa, mas com um pé em Elvis Presley, vai saber. Tudo isso se misturava
no prato de cada um, podia ser rock e podia ser musica brasileira. Alguem
preferiu batizar de Rock Br, talvez fosse a torcida maior, e ficou sendo
uma geração de roqueiros que tomaram o poder finalmente. Mas, olhando de
longe, são baladas liricas como todos os boleros, dores de cotovelo
familiares em todos os bregas de norte a sul, canções de arrebol e de tocar
a boiada, parodias e facécias engraçadas, humor e espanto pelo progresso e
pelo metro que acabava de vez com nossa ilha tropical, com nossa praia,
horda de hunos que nos invadimos e De Repente California, uma salada,
cultura, feijoada."

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